segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

COGITAÇÃO ESPÍRITA A PROPÓSITO DA MEMÓRIA


Jorge Hessen
http://jorgehessen.net



Permanecer sem comer um ou dois dias por semana pode resguardar o cérebro contra doenças degenerativas como mal de Parkinson ou de Alzheimer, segundo estudo efetivado pelo National Institute on Ageing (NIA), em Baltimore, nos Estados Unidos. Para Mark Mattson, líder do laboratório de neurociências do NIA, “reduzir o consumo de calorias poderia ajudar o cérebro, mas fazer isso simplesmente diminuindo o consumo de alimentos pode não ser a mais perfeita maneira de ativar a memória. É melhor alternar períodos de jejum, em que não se ingere praticamente nada, com períodos em que se come o quanto quiser.” (1)
Nessa linha de pesquisa, os cientistas japoneses do Instituto Metropolitano de Ciências Médicas de Tóquio, no Japão, também afiançam que “passar fome” pode ampliar a memória. Embora necessitem de mais tempo para extrair conclusões categóricas, demonstram, porém, que a “fome desejada” queima toxinas corporais, acorda um hormônio redutor da glicose no organismo e ativa uma proteína no cérebro adequada para auxiliar a memória. Declaram distintos estudiosos que durante o estágio da fome almejada (jejum) a mente fica mais desperta e as percepções aumentam a audição, a visão, o olfato; tudo fica mais fulgente. Isso pode ser um indicativo de que ocasiões de fome programada podem ser benéficas à memória e ao organismo como um todo.
É conveniente desdobrar e comentar esses curiosos elementos para apreciação do papel desempenhado pela tal memória; ir mais adiante, a fim de levantar pontos para estudo, sem a ingênua pretensão de oferecer a palavra final nesta anotação. Afinal, o que é a memória? Para o dicionarista, memória é faculdade pela qual o espírito conserva ideias ou imagens, ou as readquire sem grande esforço.(2) Onde a sede da consciência e do pensamento? Do que são feitas as “vozes” e imagens da reminiscência? Onde enxergamos as imagens produzidas pela recordação? O que é o inconsciente e de onde brotam as lembranças antes de as termos conscientemente? O que é a mente e o que anima o corpo? São questões que o orbe academicista não dá conta de explicar.
A mente é o espelho da vida em toda parte e o cérebro é o centro de suas sinuosidades, originando a força do pensamento que tudo move, instituindo e alterando, destruindo e recompondo para acrisolar e sublimar. “Comparemos a mente humana (espelho vivo da consciência lúcida) a um grande escritório, subdividido em diversas seções de serviço. Aí permanece o Departamento do Desejo, em que operam os propósitos e as aspirações, acalentando o estimulo ao trabalho; o Departamento da Inteligência, dilatando os patrimônios da evolução e da cultura; o Departamento da Imaginação, amealhando as riquezas do ideal e da sensibilidade; o Departamento da Memória, arquivando as súmulas da experiência, e outros ainda que definem os investimentos da alma.”(3)
Sob o guante das teses materialistas, porém, a memória somente advém dos miolos encefálicos. O que está registrado no cérebro provém dos sentidos. A percepção dos sons, imagens, odores, sabores, pressões, aflições, frio, calor, equilíbrio e todas as outras possíveis sensações não se dão nos órgãos sensoriais, mas no cérebro, que interpreta as sensações com base em tudo que tem registrado. Atestam os academicistas que a consciência é a operação cerebral de municiar a pessoa do conhecimento de algo percebido ou processado. Para eles, inexiste o tal espírito.
Para esses defensores, o "eu" é a consciência de si próprio, isto é, uma operação exclusiva do cérebro em reconhecer-se a si mesmo e ao organismo que o contém como algo distinto do resto do mundo. Tudo isso é gravado nas conexões neuronais que formam a memória. Afirmam os catedráticos que todas as operações psíquicas, como pensar, sentir, querer são procedidas sobre os registros da memória, que incluem não só imagens de sensações, mas também registro de operações. Tudo isso pode perfeitamente ser reproduzido em aparato artificial, capaz de ter consciência, emoções etc.
Será que são razoáveis tais assertivas dos arautos do materialismo contemporâneo?
Do ponto de vista espírita, “o cérebro é o dínamo que produz a energia mental, segundo a capacidade de reflexão que lhe é própria. No entanto, na vontade, temos o controle que a dirige nesse ou naquele rumo, estabelecendo causas que comandam os problemas do destino. Sem ela, o desejo pode comprar ao engano aflitivos séculos de reparação e sofrimento; a inteligência pode aprisionar-se na enxovia da criminalidade; a imaginação pode gerar perigosos monstros na sombra, e a memória, não obstante fiel à sua função de registradora, conforme a destinação que a natureza lhe assinala, pode cair em deplorável relaxamento.”(4)
Na verdade, a comunidade científica já comprovou que o pensamento, aliás, os pensamentos são correntes eletromagnéticas - eletricidade e magnetismo, portanto energia! Para aqueles que arrazoam que o pensamento ocorre dentro do cérebro - precisam aceitar que são apenas aparelhos eletromagnéticos e que os pensamentos vêm de fora e não do interior da cachola física. No arcabouço perispirítico, a memória tudo armazena, e pelo mecanismo da criptomnésia(5) são guardadas as conquistas da própria memória, conservando, provisoriamente apagadas, as lembranças de outras vidas pretéritas, por exemplo, o que não significa dizer que não se pode ter acesso a esses acervos de forma natural ou provocada.
Mas será que verdadeiramente a reminiscência do Espírito está armazenada na contextura perispiritual? Memória é a aptidão de evocar informações guardadas em nosso “cérebro psissomático”. Mas como essas imagens ou sensações são arquivadas? Há espíritas que negam tal probabilidade, assegurando serem o corpo físico e o perispírito apenas os veículos de manifestação do espírito. Alegam que o corpo físico não pensa, não raciocina, não memoriza, e portanto a memória não está sediada no corpo físico nem no perispírito, mas reside exclusivamente no próprio espírito, pois o perispírito apenas reflete o pensamento do espírito. Contudo, avaliando que todos os espíritos possuirão para sempre um envoltório perispiritual, até mesmo os espíritos puros (que conterão um invólucro mais divinizado), a questão da sede essencial da memória ainda não estaria elucidada.
Entendemos que os subsídios que adquirimos nas experiências de vidas pregressas, os fatos que desvendamos incorporam-se à nossa memória, cujos registros fundamentais se localizam no “cérebro perispiritual”, e, conquanto gravadas no ocaso do dito inconsciente, jazem ali, à nossa disposição. Quão mais informações tenhamos alcançado no pretérito, mais simplificado se torna decidir com êxito as circunstâncias novas, porque trazemos uma espécie de banco de dados mais amplo, contra o qual checamos comparativamente os episódios novos, as novas conjeturas, as novas experiências. É sempre mais fácil erguer sobre a fundação já solidificada.
Como elucubramos sobre a memória, há, igualmente, por aqui, semelhanças observáveis com a informática, pois os computadores atuais não são mais do que “cérebros artificiais”, embora extremamente primitivos e limitados em comparação com o cérebro perispiritual. São simples bancos de dados que deliberam entre duas alternativas, conforme um programa preestabelecido e de acordo com o estoque de informações que têm gravado em suas memórias.(6) É evidente que não ansiamos expor que o computador seja inteligente, nem que tenha intuição, todavia é correto dizer que se aproveita de um dos atributos da inteligência humana, isto é, a memória.


Referências:
(1) Disponível em , acessado em 17/02/2013;
(2) Disponível em , acessado em 17/02/2013;
(3) Disponível em ;
(4) Disponível em ;
(5) Criptomnésia sf (cripto+mnese+ia) = Memória subconsciente;
(6) Dispositivos de um computador ou sistema informático que permite o registro, a conservação e a restituição dos dados.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

COMO ESTAMOS PENSANDO?




Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

Pensamento e pensar são, concomitantemente, uma configuração do artifício mental ou capacidade da codificação mental. Raciocinar consente aos seres moldarem o mundo e com isso lidar com ele de um modo concreto consoante as suas metas, planos e vontades. O pensamento é avaliado como a demonstração mais tangível do espírito humano, porquanto por meio de representações e ideias desponta precisamente a pretensão deste.
O pensamento é fundamental no processo de aprendizagem e é o principal veículo do processo de conscientização. A atividade de pensar confere ao homem asas para sobrepor e mover-se no mundo, as raízes para aprofundar-se na realidade. Etimologicamente, pensar significa avaliar o peso de alguma coisa. Em sentido amplo, podemos dizer que o pensamento tem como missão tornar-se avaliador da "realidade". Segundo Descartes, o filósofo por excelência, "a essência do homem é pensar". Por isso proferia: "Sou uma coisa que pensa, isto é, que duvida, que afirma, que ignora muitas, que ama, que odeia, que quer e não quer, que também imagina e que sente. Logo quem pensa é consciente de sua existência, "penso, logo existo."(1)
Filosoficamente, observemos que há a realidade que depende da existência de um observador e a realidade que independe do observador para existir. Elementos como átomos, força, gravidade, fotossíntese, são exemplos do que existe independentemente do observador - é a realidade natural. Em contrapartida, dinheiro, propriedade e governo são exemplos que dependem de nós para existir - é a realidade social, cultural, existencial. O peso que as idéias ou palavras exercem sobre nossas ações, sobre nossos estados emocionais, sobre a construção de nossas vidas, quase sempre é imenso.
Segundo os Benfeitores, o pensamento atua à feição de onda, com velocidade muito superior à da luz, e a mente é o dínamo gerador de força criativa. Sendo matéria, a onda mental é formada por corpúsculos (partículas mentais), a se anunciarem como ondas e formas mentais. Em situações extraordinárias da mente, excitação dos micro-núcleos atômicos mentais, quais sejam, as emoções profundas, as dores indivisíveis, as laboriosas e aturadas concentrações de força mental ou as súplicas aflitivas, o domínio dos pensamentos emite raios muito curtos, teoricamente semelhantes aos que se aproximam dos raios gama.
Decididamente, muito de nossas ações só acontece porque pensamos algo, desejamos algo, acreditamos em algo, tememos algo, ou seja, há um estado subjetivo que provoca um tipo de movimentação no mundo concreto. Se isso é fato - e é difícil, empiricamente, duvidar desse fato - então, a interferência do que pensamos sobre o que vivemos é muito maior do que habitualmente imaginamos. Dessa forma, o dito popular "cuidado com o que você pensa", possui um sentido muito mais amplo. A rigor, nossos pensamentos interferem e determinam nossas ações, nossos posicionamentos, e o mundo em que vivemos se constitui a partir da interferência dessas nossas ações sobre ele.
Temos então pensamentos que geram ações, que geram pensamentos, que geram ações. Ações que geram o mundo, que gera ações. O pensamento do outro que constitui o meu pensamento, que constitui o pensamento do outro. Quais os limites, as linhas divisórias entre esses elementos? Creio não ser possível estabelecer esses limites, ou seja, quando um elemento termina e o outro começa. Não há fronteiras, territórios específicos do pensar, do agir, do eu, do outro. A constatação da fluidez de nosso pensar e, consequentemente, de nossas ações, enfim, daquilo que somos, talvez permita uma melhor compreensão de como viver em um mundo onde não haja uma única possibilidade, mas todas as possibilidades, ou seja, onde tudo seja possível.
Sob o ponto de vista espírita, nosso espírito residirá onde projetarmos nossos pensamentos, alicerces vivos do bem e do mal. Os pensamentos negativos corrompem os fluidos espirituais, como os miasmas deletérios corrompem o ar respirável, ou seja, o otimismo é expansão da luz e o pessimismo é condensação da sombra. Os fluidos que envolvem os Espíritos obsessores, ou que estes projetam, são viciados, variando de acordo com o grau de imperfeição de cada um, ao passo que os que envolvem os Benfeitores espirituais, ou que eles emitem, são puros, tanto quanto comporta o grau de perfeição moral que tenham conquistado.
Outro aspecto a considerar é que tanto os bons pensamentos quanto os maus, emitidos por um ser encarnado, afetam, consideravelmente, as mentes de irmãos, também encarnados, em faixas mentais equivalentes. É imprescindível compreender que, depois da morte do corpo físico, prosseguimos desenvolvendo os pensamentos que cultivávamos na experiência carnal. O pensamento age e reage, carreando para o emissor tudo que o sustenta, como também tudo que arremessa a quem pretenda atingir. Determina para cada criatura os estados psíquicos que variam segundo os tipos de emoção e conduta a que se afeiçoe.
O sentimento de amor cristão pode impulsionar o correto pensamento, sem os quais adoecemos pela insuficiência de equilíbrio íntimo, imprimindo no corpo físico as distonias e as variadas patologias que lhe são consequentes. Para termos saúde, é importante saber como estamos pensando. Os pensamentos negativos operam em nosso estado íntimo determinada perturbação, instaurando desarmonias de grandes proporções nos centros da alma e provocando lesões funcionais variadas. Quaisquer doenças aparecem como efeitos, residindo a causa no desequilíbrio dos espelhos da vida íntima, uma vez que os sintomas mentais depressivos influenciam as células fisiológicas.
Recordemos que os efeitos dos anseios e pensamentos indignos que mantemos se tornam contra nós mesmos, depois de decompostos em ondas mentais, tumultuando nossas funções neurológicas, e esses reflexos imprudentes, alastrando-se sobre a contextura do córtex cerebral, gestam delírios que podem transformar do medo evidente ao estado neurótico, circunstância em que os obsessores nos alcançam com alvitres destruidores, diretos ou indiretos, transportando-nos a lamentáveis fenômenos de desgoverno psicológico e emocional. Não olvidemos jamais que exclusivamente o amor cristão pode estimular o adequado pensamento e nos fazer alforriados das amarguras sorrateiras. Sem o amor exercitado, adoecemos, espiritualmente, pela carência de equilíbrio íntimo, transmitindo ao corpo físico as distonias e as variadas patologias que lhe são consequentes. Por isso, necessitamos ter muito cuidado com o quê, como, onde e por que pensamos desse ou daquele modo.

Referência:
(1)    Disponível em http://blogeducavirtual.wordpress.com/2012/07/13/penso-logo-existo/ aceso em 09/02/2013

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

FALEMOS DE CARNAVAL



Jorge Hessen
http://jorgehessen.net


Raciocinemos sobre o tal Carnaval, um termo oriundo de uma festa romana e egípcia em homenagem ao Deus Saturno, quando carros alegóricos (a cavalo) desfilavam com homens e mulheres. Eram os carrum navalis, daí a origem da palavra “carnaval”. Há quem interprete a palavra conforme as primeiras sílabas das palavras da frase: carne nada vale. Como festa popular, poderia ser um acontecimento cultural plausível, não fossem os excessos cometidos em nome da alegria.
Nesses períodos os carnavalescos alucinados surgem de todos os (re)cantos para caça da contraversão da ética. Para muitos são longas as estações de dias e noites para as preparações do delírio insano dos três dias de fantasias. Vários incautos esfolam as finanças familiares para experimentar o encanto efêmero de curtir dias de completa paranoia. Adolescentes e marmanjos se abandonam nas arapucas pegajosas das drogas lícitas e ílícitas. Não compreendem que bandos de malfeitores do além (obsessores) igualmente colonizam as avenidas das escolas de samba num lúgubre show de bizarrices. Celerados das escuridões espirituais se acoplam aos bobalhões fantasiados pelos condutores invisíveis do pensamento, em face dos entulhos concupiscentes que trazem no mundo íntimo.
Sobrevém uma permuta vibratória em todos e em tudo. Os espíritos das brumas umbralinas se conectam aos escravos de momo descuidados, desvirtuando-os a devassidões deprimentes e jeitos grotescos de deploráveis implicações morais. Tramas tétricas são armadas no além-tumba e levadas a efeito nessas oportunidades em que momo impera dominador sobre as pessoas que se consentem despenhar na festa medonha.
Enquanto olhos embaciados dos foliões abrangem o fulgor dos refletores e das fantasias brilhantes (inspirações ridículas impostas pelos malfeitores habitantes das províncias lamacentas do além túmulo), nas avenidas onde percorrem carros alegóricos (que, pasmem! já até transportou a efígie do Chico Xavier sob aplausos de omissos líderes espíritas), a visão dos espíritos observa o recinto espiritual envolto em carregadas e sombrias nuvens cunhadas pelas oscilações de baixo teor mental.
Os três dias de folia, assim, poderão se transformar em três séculos de penosas reparações. É bom pensarmos um pouco nisso: o que o carnaval traz ao nosso Espírito? Alegria? Divertimento? Cultura? É de se perguntar: será que vale a pena pagar preço tão elevado por uns dias de desvario grupal?
Quando se pretende alcançar essa alegria, através do prazer desregrado e dos excessos de toda ordem, o resultado é a insatisfação íntima, o vazio interior provocado pelo desequilíbrio moral e espiritual. Portanto, não fossem os exageros, o Carnaval, como festa de integração sócio-racial, poderia se tornar um acontecimento compreensível, até porque não admitir isso é incorrer em erro de intolerância. Porém, para os espíritas merece reflexão a advertência de André Luiz: “Afastar-se de festas lamentáveis, como aquelas que assinalam a passagem do carnaval, inclusive as que se destaquem pelos excessos de gula, desregramento ou manifestações exteriores espetaculares. A verdadeira alegria não foge da temperança.” (1)
A efervescência momesca é episódio que satura, em si, a carga da barbárie e do primitivismo que ainda reina entre nós, os encarnados, distinguidos pelas paixões do prazer violento. Costuma ser chamado de folia, que vem do francês folle, que significa loucura ou extravagância. Nos dias conturbados de hoje, sabe-se que “(…) de cada dez casais que caem juntos na folia, sete terminam a noite brigados (cenas de ciúme etc); que, desses mesmos dez casais, posteriormente, seis se transformam em adultério, cabendo uma média de três para os homens e três para as mulheres (por exemplo); que, de cada dez pessoas (homens e mulheres) no carnaval, pelo menos sete se submetem espontaneamente a coisas que normalmente abominam no seu dia a dia, como álcool, entorpecente etc. Dizem, ainda, que tudo isso decorre do êxtase atingido na Grande Festa, quando o símbolo da liberdade, da igualdade, mas, também, da orgia e depravação, somadas ao abuso do álcool, levam as pessoas a se comportarem fora do seu normal (…)” (2)
O Espírito Emmanuel adverte: “Ao lado dos mascarados da pseudo-alegria, passam os leprosos, os cegos, as crianças abandonadas, as mães aflitas e sofredoras. (…) Enquanto há miseráveis que estendem as mãos súplices, cheios de necessidades e de fome, sobram as fartas contribuições para que os salões se enfeitem.”(3)
Como proferi supra, nesse panorama, os obsessores “influenciam os incautos que se deixam arrastar pelas paixões de Momo, impelindo-os a excessos lamentáveis, comuns por essa época do ano, e através dos quais eles próprios, os Espíritos, se locupletam de todos os gozos e desmandos materiais, valendo-se, para tanto, das vibrações viciadas e contaminadas de impurezas dos mesmos adeptos de Momo, aos quais se agarram.” (4)
Portanto, além da companhia de encarnados, vincula-se a nós uma inumerável legião de seres invisíveis, recebendo deles boas e más influências a depender da faixa de sintonia em que nos encontremos. As tendências ao transtorno comportamental de cada um, e a correspondente impotência ou apatia em vencê-las, são qual imã que atrai os espíritos desequilibrados e fomentadores do descaso à dignidade humana, que, em suma, não existiriam se vivêssemos no firme propósito de educar as paixões instintivas que nos animalizam.
Será racional fechar as portas dos centros espíritas nos dias de Carnaval, ou mudar o procedimento das reuniões? Existem alguns centros que fecham suas portas nos feriados do carnaval por vários motivos não razoáveis. Repensemos: uma pessoa com necessidades imediatas de atendimento fraterno, ou dos recursos espirituais urgentes em caso de obsessão, seria fraterno fazê-la esperar para ser atendida após as “cinzas”, uma vez ocorrendo essa infelicidade em dia de feriado momesco?
Os foliões crônicos declaram que o carnaval é um extravasador de tensões, “liberando as energias”… Entretanto, no carnaval não são serenadas as taxas de agressividade e as neuroses. O que se observa é um somatório da bestialidade urbana e de desventura doméstica. Aparecem após os funestos três dias as gravidezes indesejadas e a consequente proliferação de assassinatos de intrusos bebês nos ventres, incidem acidentes automobilísticos, ampliação da criminalidade, estupros, suicídios, aumento do consumo de várias substâncias estupefacientes e de alcoólicos, assim como o aparecimento de novos viciados, dispersão das moléstias sexualmente transmissíveis (inclusive a AIDS) e as chagas morais, assinalando, densamente, certas almas desavisadas e imprevidentes.
O carnaval edifica o nosso Espírito? Muitos espíritas, ingenuamente, julgam que a participação nas festas de Carnaval, tão do agrado dos brasileiros, nenhum mal acarreta à nossa integridade fisiopsicoespiritual. No entanto, por detrás da aparente alegria e transitória felicidade, revela-se o verdadeiro atraso espiritual em que ainda vivemos pela explosão de animalidade que ainda impera em nosso ser. É importante lembrá-los de que há muitas outras formas de diversão, recreação ou entretenimento disponíveis ao homem contemporâneo, alguns verdadeiros meios de alegria salutar e aprimoramento (individual e coletivo), para nossa escolha.
Não vemos, por fim, outro caminho que não seja o da “abstinência sincera dos folguedos”, do controle das sensações e dos instintos, da canalização das energias, empregando o tempo de feriado do carnaval para a descoberta de si mesmo; o entrosamento com os familiares, o aprendizado através de livros e filmes instrutivos ou pela frequência a reuniões espíritas, eventos educacionais, culturais ou mesmo o descanso, já que o ritmo frenético do dia a dia exige, cada vez mais, preparo e estrutura físico-psicológica para os embates pela sobrevivência.
Somente poderemos garantir a vitória do Espírito sobre a matéria se fortalecermos a nossa fé, renovando-nos mentalmente, praticando o bem nos moldes dos códigos evangélicos, propostos por Jesus Cristo.


Referências bibliográficas:

(1)       Vieira, Waldo. Conduta Espírita, ditado pelo Espirito André Luiz, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001, cap.37 “Perante As Fórmulas Sociais”
(2)       São José Carlos Augusto. Carnaval: Grande Festa…De enganos! , Artigo publicado na Revista Reformador/FEB-Fev 1983
(3)       Xavier , Francisco Cândido. Sobre o Carnaval, mensagem ditada pelo Espírito Emmanuel, fonte: Revista Reformador, Publicação da FEB fevereiro/1987
(4)       Pereira, Ivone. Devassando o Invisível, Rio de Janeiro: cap. V, edição da FEB, 1998

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

PERANTE OS EX-PRESOS, COMO ACOLHÊ-LOS NA SOCIEDADE?


Jorge Hessen
http://jorgehessen.net
 
 Após o cumprimento da sentença, como deve ser a ressocialização dos ex-detentos que perpetraram crimes rumorosos? Carece ser diferente do que foi com os demais ex-presidiários? Os algozes de Daniela Perez e os homicidas do índio Galdino, hoje em liberdade, têm condições de coexistir com a sociedade? Como devemos conviver com tais pessoas? Fazem jus a uma nova chance? Sabemos que arrasaram famílias. Não é difícil arrazoar quando as vítimas não são nossos parentes.
Mas, reflitamos, já cumpriram suas penas, portanto, elas têm o direito de viver a vida, já que pagaram pelo que fizeram. Sim! O débito com a justiça foi liquidado, e sabemos que é uma dívida que não se mensura visando a paz de consciência. É uma dor moral que carregam nos escrínios da  consciência que não se interrompe.
Muitos afirmam que a Lei Penal brasileira é pusilânime, mas é a Lei; eles cumpriram pena e têm o direito de ter suas vidas recompostas. O desígnio da lei não é punir puramente, entretanto igualmente possibilitar a recuperação do indivíduo. Para OS especialistas do assunto, a pena é uma resposta punitiva estatal contra um determinado crime e deve ser proporcional à extensão do dano, jamais poderá violar a dignidade humana, pois estaria reparando um erro com outro erro.
É mais do que sabido que a punição por si só não muda o comportamento transgressor do ser humano socialmente opresso, é preciso reeducá-lo para que possa compreender a importância da liberdade. A ausência de políticas públicas com objetivo de reintegrar o preso à sociedade inviabiliza qualquer possibilidade de reabilitação quando este torna-se egresso do sistema prisional.
A própria condição de ex-presidiário impregna em si o peso da sociabilidade carcerária e, por conseguinte, afeta a reconstrução de dados básicos da vida cotidiana, tais como as inclusões formais de trabalho, de lazer, de família. A dificuldade de ressocialização é um problema enfrentado por todo ex-detento. Independentemente do crime cometido, ao ter a liberdade garantida, o ex-preso esbarra no preconceito de uma sociedade que não está preparada para recebê-lo. No Brasil o egresso do sistema prisional é um eterno condenado, carrega um rótulo estigmatizado de ex-presidiário, sofre a aversão da sociedade e porta cédulas de identidade com a desonra de ex-detento.
Todos os seres humanos que erraram devem ter oportunidade de recompor-se. Para tanto, a sociedade e o governo lhes devem condições dignas. Até mesmo os presos tidos por “irrecuperáveis” foram e são vítimas do sistema. A sociedade precisa ser transformada. Esse conjunto de fatores dificulta uma necessária, providencial e humanitária reinserção do detento no mercado de trabalho, e consequentemente ao convívio social.
Outra coisa a ser cogitada é que o preconceito contra o ex-detento precipita o seu revide no crime – a rejeição entre os seus inviabiliza qualquer ensaio de reintegração ou tentativa de transformação, podendo ainda torná-lo mais violento. Esse procedimento é um espelho do próprio impulso de defesa humana. Por isso, é preciso apoio familiar, ativação dos bons valores e um pouco de tolerância para que o ex-encarcerado possa sobrepujar os traumas do drama penitenciário. Estima-se que (21%) dos brasileiros não gostariam de encontrar ou ver os ex-presidiários. Os ex-detentos despertam repulsa ou ódio em (5%) dos brasileiros, antipatia em (16%) e recebem a indiferença de (56%) dos entrevistados. O levantamento foi realizado em 2.014 domicílios, de 150 municípios de pequeno, médio e grande porte, em todas as regiões do País e com pessoas maiores de 16 anos.(1)
Sem oportunidade no mercado de trabalho, o ex-presidiário perde opções de subsistência e enxerga no crime uma das poucas alternativas para continuar se mantendo. O preconceito da sociedade contra as pessoas que cometeram delitos acaba estimulando a criminalidade.
Os Benfeitores Espirituais nos instruem que devemos “amar os criminosos como criaturas que são, de Deus, às quais o perdão e a misericórdia serão concedidos, se se arrependerem, como também a nós, pelas faltas que cometemos contra sua Lei.”.(2) Muitas vezes somos “mais repreensíveis, mais culpados do que aqueles a quem negamos perdão e comiseração, pois, as mais das vezes, eles não conhecem Deus como O conhecemos, e muito menos lhes será pedido do que a nós.”(3)
Por várias razões, não podemos julgar nenhuma pessoa, porquanto “o juízo que proferirmos ainda mais severamente nos será aplicado e precisamos de indulgência para as iniquidades em que sem cessar incorremos. Não podemos ignorar que há muitas ações que são crimes ante os ditames da Lei de Deus e que o mundo nem sequer como faltas leves considera.”.(4)
Em suma, diante dos criminosos devemos “observar o nosso modelo: Jesus. Que diria Ele, se visse junto de si um desses desgraçados? Lamentá-lo-ia; considerá-lo-ia um doente bem digno de piedade; estender-lhe-ia a mão. Em realidade, se não podemos fazer o mesmo, podemos pelo menos orar pelos criminosos. Podem eles ser tocados de arrependimento, se orarmos com fé."(5)
 
Referências bibliográficas:
(1)           Disponível em http://www.fpabramo.org.br/search/node/INDIFEREN%C3%87A%20EM%2056 acesso em 06/02/13
(2)           Kardec, Allan . O Evangelho Segundo O  Espiritismo. Cap. XI “Amar o próximo como a si mesmo - Caridade para com os criminosos”, RJ: Ed FEB, 1990
(3)           idem
(4)           idem
(5)           idem

sábado, 2 de fevereiro de 2013

PRECONCEITOS, ATÉ QUANDO?



Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

 Balpreet Kaur, uma estudante do segundo ano de neurociência e psicologia na Universidade de Ohio State (EUA), padece de hirsutismo (crescimento excessivo de pelos terminais na mulher, em áreas anatômicas características de distribuição masculina) e é adepta do sikhismo (1), uma religião antiga e com muitos adeptos do Paquistão e da Índia. (2)
Recentemente foi execrada e humilhada através de um site de relacionamento por ter sido fotografada, por um colega de faculdade, trajando o tradicional turbante utilizado pelos sikh(3) e com pelos faciais (bigode, cavanhaque e costeletas). Sabe-se que na cultura sikh, o corpo é cultuado como “um bem divino” e deve ser conservado intacto.
Indo contra todos os moldes de estética infligidos pelos padrões de beleza femininos, Balpreet não se preocupa em se “barbear”. Para ela, a transformação do corpo seria viver para o ego e criaria separação entre o “eu” e a divindade. (4) Kaur entende que é urgente focalizar mais nas ações do que nas aparências físicas, pois quando perecermos ninguém vai se lembrar do nosso corpo físico, mas só das obras dignas que realizamos. Para ela, as práticas do bem permanecerão e não será entronizando a formosura física que obteremos ocasião para aperfeiçoar outras virtudes interiores e facultar propostas de transformação e desenvolvimento na sociedade.
O fato nos induz a refletir sobre a intolerância e o preconceito, ou seja, PRE (antes) e CONCEPTUS (resumo, concebido - de concipere - conceber, engravidar). Assim como DISCRIMINARE (dividir, separar, gerar uma diferença) é derivada de DISCERNERE (distinguir, separar), formado por DIS (fora) e CERNERE (peneirar, separar). Enfim, são opiniões formadas com base em ajuizamento próprio, com tom depreciativo, tendencioso e discriminatório.
É de grande utilidade os espíritas refletirem sobre esse assunto e transporem suas conclusões para os ambientes que frequentam e a ideologia que cultivam como fonte de realização. O grau de preconceito demonstrado por aqueles que discriminam, perseguem e expulsam seus confrades, quando estes começam a destoar dos seus pontos de vista, demonstram a incapacidade de compreender e conviver com a diversidade e de aceitar o princípio igualdade humana como lei universal.
É comum as pessoas demonstrarem atitude maliciosa ao saber do casamento de uma bela jovem com um idoso. Se o ancião é famoso, ou tem fortuna e poder, depressa arrazoam que o pretexto para o casório é tão somente interesse financeiro. Esquecem que pessoas jovens e idosas, como todos os seres humanos, têm lacunas afetivas; procuram a ternura e anseiam por serem queridas. É imperioso acatar as eleições alheias. Exercitar olhares compassivos que possam desvendar o lado melhor das situações e pessoas. Urge enxergar os fatos com otimismo, sem ajuizamentos errados ou precipitados. Invariavelmente, os preconceitos são matrizes de infelicidade e arruínam o júbilo de viver.
Os preconceitos, sobretudo religiosos, são estratificados em nosso psiquismo e na conduta como peças ardilosas para discriminação de grupos e princípios ideológicos. Mahatma Gandhi, figura contemporânea da Era Atômica, parecia ser em sua época, e ainda hoje, uma pessoa bizarra, saído das páginas de qualquer livro de folclore. Martim Luther King, seguindo os passos de Gandhi, desmontou a dissimulação que coloria nos EUA a fantasia da liberdade e dos direitos civis. A experiência de Allan Kardec comprova que é plausível ir mais à frente das acepções, romper preconceitos seculares e prosseguir cada vez mais no terreno da liberdade de consciência. É preciso ir além, dissolver paradigmas, atrever-se, como fizeram os demolidores de convencionalismos em todas as épocas.
Qual é a nossa opinião presente a respeito do sexo, religião, raça, velhice, nação, política e outras? Nosso juízo é do tipo “Maria-vai-com-as-outras”, ou seja, somos naturalmente influenciáveis e nos deixamos induzir pelo julgamento de outrem? O Soberano Mestre demonstrou ser inteiramente impenetrável a qualquer influência alheia quanto a seus sentimentos e sentidos de vida, revelando isso em várias ocorrências de Sua trajetória terrena. Ao acolher no coração a equivocada de Migdol, ao exaltar as virtudes do Samaritano, ao banhar os pés dos apóstolos, ao frequentar a casa de Zaqueu, não deu a menor estima aos burburinhos maledicentes das pessoas de arcabouço psicológico pueril, pois sabia peregrinar distinguindo por si mesmo.
Somos, como grupo social humano, um intricado mosaico de ideologias e crenças, na forma de cultos religiosos, partidos políticos, corporações filosóficas ou costumes de vida que avaliamos sedutores e afins com o nosso estilo de observar o mundo. Nessa confraria buscamos respostas, lenitivo espiritual, prestígio e todos os recursos plausíveis para resolver os nossos conflitos internos, nossas deficiências pessoais, e finalmente a busca da plenitude, de uma direção, da auto-realização.
O espírita, o cristão, não deve ter preconceitos, mas sim saber distinguir o que vai trazer ou não consequências danosas para si e para os outros. Em tudo o que fizermos, sejamos maduros e consequentes. Isso não quer dizer que devemos viver como importunos, reparando na forma como os outros vivem, e colocando-nos como senhores da verdade. Sejamos alegres, úteis e amigos. Mas sejamos responsáveis, colocando acima de tudo o interesse coletivo, a pureza de sentimentos, que fará de todos os nossos atos exemplos de quem encontrou o verdadeiro caminho da paz.


Referências:
(1)       O número de sikhs no mundo é estimado em cerca de 23 milhões, o que faz do sikhismo a quinta maior religião mundial em número de aderentes.
(2)       Uma intervenção de tropas indianas ordenada por Indira Gandhi no início dos anos 80 levou à revolta dos sikhs e ao assassinato da primeira-ministra indiana em 1984
(3)       O termo sikh significa em língua punjabi "discípulo forte e tenaz".
(4)       Os sikhs acreditam no karma, segundo o qual as ações positivas geram frutos positivos e permitem alcançar uma vida melhor e o progresso espiritual; a prática de ações negativas leva à infelicidade e ao renascer em formas consideradas inferiores, como em forma de planta ou de animal (a metempsicose é recusada pelo Espiritismo).

sábado, 26 de janeiro de 2013

SIMPLESMENTE KARDEC


SIMPLESMENTE KARDEC



... Não devo, entretanto, omitir uma censura que me foi endereçada: a de nada fazer para trazer de novo a mim as pessoas que se afastam. Isso é verdadeiro e a reprovação fundamentada. Eu a mereço, pois jamais dei um único passo nesse sentido e aqui estão os motivos de minha indiferença.

Aqueles que de mim se aproximam, fazem-no porque isto lhes convém; é menos por minha pessoa do que pela simpatia que lhes desperta os princípios que professo.
Os que se afastam
 fazem-no porque não lhes convenho ou porque nossa maneira de ver as coisas reciprocamente não concorda.

Por que, então, iria eu contrariá-los, impondo-me a eles?
Parece-me mais conveniente deixa-los em paz. Ademais, honestamente, carece-me de tempo para isto.

Sabe-se que minhas ocupações não me deixam um instante em repouso.
Além disso, para um que parte, há mil que chegam. Julgo um dever dedicar-me, acima de tudo, a estes e é isso que faço.

Orgulho? Desprezo por outrem? Oh! Não! Honestamente, não!
Eu não desprezo ninguém; lamento os que agem mal, rogo a Deus e aos Bons Espíritos que façam nascer neles melhores sentimentos. E isso é tudo.
Se retornam, são sempre recebidos com júbilo. Mas correr ao seu encalço, isso não me é possível fazer, mesmo em razão do tempo que de mim reclamam as pessoas de boa vontade, e, depois, porque não empresto a certos indivíduos a importância que eles a si próprios atribuem...

(Allan Kardec)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

REVISTA O ESPÍRITA PUBLICOU - ADULAÇÕES ELOGIOSAS SÃO PEÇONHAS NA FORMA VERBAL

Jorge Hessen / Brasília

O que uma pessoa tende a valorizar mais: satisfação sexual, dinheiro, comida, álcool, amigos ou elogios? “Pesquisadores avaliaram os desejos e gostos de alguns estudantes universitários sobre uma série de desejos e gostos e os resultados, para surpresa dos estudiosos, indicaram que os voluntários dão mais valor a um elogio ou uma avaliação positiva do que comer sua comida preferida, satisfazer-se sexualmente, beber, receber o salário do mês e até encontrar um melhor amigo.”(1)
Portanto, embora surpresos, os pesquisadores confirmaram que o desejo de se “sentir valorizado”, através de elogios, triunfa sobre qualquer outra situação prazerosa. Cremos que estamos observando gerações em que uma parcela gigantesca de cidadãos é constituída de adultos condescendentes, imaturos para os obstáculos, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e dotados de uma alucinante certeza de que o mundo lhes deve algo, por isso, exigem ser adulados.
Não há dúvida de que a ausência de palavras e frases motivadoras, cada vez mais incomuns nos ambientes domésticos, prejudica a relação parental. Raramente observam-se muitos homens estimulando com palavras edificantes suas mulheres e vice-versa, não se constata regularmente chefes estimulando com sinceridade o trabalho de seus subordinados, não é muito comum pais e filhos estimulando-se com palavras afetuosas.
Óbvio que o bom profissional, inobstante não almeje, valoriza uma palavra e estímulo , o bom filho gosta de ser reconhecido, o bom pai ou a boa mãe exultam de ser avaliados positivamente, o bom amigo, a boa dona de casa, a mulher que se cuida, o homem que se dedica, enfim, vivemos numa sociedade em que um precisa do outro; é impossível um homem viver sozinho, e as palavras motivadoras (que não pode resvalar para elogios) são a oxigenação de ânimo na vida de qualquer pessoa.
Desde que adentramos nos portais dos ensinos kardecianos, aprendemos que o elogio (ainda que bem intencionado) nos amolece e ilude. E nada existe de mais frágil que uma criatura iludida a seu próprio respeito. É verdade , os Benfeitores nos advertem a fim de que não percamos nossa independência construtiva a troco de considerações humanas (bajulações), posto que a armadilha que pune o animal criminoso é igual à que surpreende o canário negligente.
Até mesmo nos momentos de agruras de alguém, “nas horas difíceis, em que vemos um companheiro despenhar-se nas sombras interiores, não olvidemos que, para auxiliá-lo, é tão desaconselhável a condenação, quanto o elogio.” (2) Sussurra a prudência cristã que nunca cederíamos campo à vaidade se não vivêssemos reclamando o deletério coquetel da lisonja ao nosso egocentrismo doentio.
Invariavelmente ficamos submissos às injunções sociais quando buscamos aprovação (bajulações) dos outros, “quando permanecemos na posição de permanentes escravos e pedintes do aplauso hipócrita e do verniz, da lisonja, condicionando-nos a viver sem usufruir de liberdade de consciência, submetendo-nos a ser manipulados pelos juízos e opiniões alheias.”(3)
O elogio nos arremessa à presunção, a afetação nos remete à vaidade. Nesse insofreável desejo de chamar a atenção alheia, queremos ser
aplaudidos e reverenciados perante os outros. Atualmente adota-se assustadoramente o hábito dos dirigentes incautos de elogiar e exaltar oradores em público. Essas pompas e grandiloquências, observadas à volta de alguns oradores famosos, é bem a repetição dos faustos do cristianismo sem o Cristo.
A rigor, se alguém vem a público dizer que um orador é "maravilhoso", "fantástico", "brilhante", "inesquecível", "insubstituível" e outras bajulices, logicamente está elogiando e jamais estimulando ou motivando tal “homenageado”.
Por essas razões, importa vigiarmos as próprias manifestações, não nos julgando
indispensáveis e preferindo a autocrítica ao auto-elogio, recordando que o exemplo da humildade é a maior força para a nossa transformação moral. “Toda presunção evidencia afastamento do Evangelho.” (4)
É imprescindível não elogiar (adular)  as pessoas que estejam agindo de conformidade com as nossas conveniências, para não lhes criar empecilhos à caminhada enobrecedora, embora nos constitua dever prestar-lhes assistência e carinho para que mais se agigante nas boas obras. O elogio (adulação) é peçonha em forma verbal. Por essa razão, não esqueçamos que “ainda quando provenha de círculos bem-intencionados, urge recusar o tóxico da lisonja, pois no rastro do orgulho, segue a ruína.” (5)




Referências bibliográficas:


(1)‘Disponível no site http://super.abril.com.br/blogs/cienciamaluca/o-que-a-gente-valoriza-mais-sexo-dinheiro-comida-alcool-amigos-ou-elogios acessado em 24/03/2011

(2) Xavier, Francisco Cândido. Fonte Viva, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2000,  Cap 37
(3) Xavier, Francisco Cândido. Saudação do Natal – Mensagem “Trilogia da vida”, ditado pelo  espírito Cornélio Pires , SP: Editora CEU, 1996
(4) Vieira, Waldo. Conduta Espírita, ditado pelo espírito André Luiz, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1972,  Cap 18
(5) Idem cap 20