quarta-feira, 8 de junho de 2016

A CIÊNCIA DO ESFORÇO DE AUTO SUPERAÇÃO Jorge Hessen




Jorge Hessen

Não obstante todo nosso avanço no conhecimento científico, sociológico e filosófico, o que sabemos sobre pessoas portadoras de limitações físicas é insipiente e, ainda hoje, apinhado de vieses e preconceitos teóricos. A sociedade tendo expectativas distorcidas quanto aos "deficientes físicos" , trata-os, quase sempre, como “coitadinhos” e dignos de comiseração. Porém, é imperioso proporcionar ao portador de limitação física uma participação ativa no processo sócio-político-histórico-cultural da sociedade e os resultados admiráveis ocorrerão. 

Observemos alguns grandes exemplos de auto superação: 

Anaya Eliick, uma menina americana de sete anos que nasceu sem as mãos venceu um concurso de caligrafia nos Estados Unidos. Natural de Chesapeake, no Estado da Virgínia, Anaya não usa próteses e apoia o lápis nos braços para escrever. Foi a vencedora entre 50 outros alunos que participaram do concurso nacional de caligrafia e levou para casa o prêmio na categoria “necessidades especiais”, que contempla estudantes com alguma deficiência física ou cognitiva. 

Jessica Cox, outra americana, nascida sem os braços, por conta de uma enfermidade congênita, vem ganhando popularidade nos Estados Unidos como exemplo de superação. Ela se tornou a primeira pessoa a conduzir uma aeronave somente com os pés e conseguiu um brevê de piloto. Cox não se entrega aos limites físicos e não se prende ao “não posso”, costuma dizer ante os desafios “ainda não consegui”. Sob esse raciocínio, acredita que quando na limitação física não se pode fazer algo, mas pode-se buscar meios de superação a fim de vencer, quebrar limites, expandir, ampliar horizontes, levando a barreira limite para mais distante do ponto anterior.

A jovem Flávia Cristiane Fuga e Silva, brasileira, de 26 anos, portadora de paralisia cerebral, recebeu sua carteira de advogada, após cinco anos de faculdade e três exames da OAB-SP. Flávia praticamente não fala e se locomove com o auxílio de uma cadeira de rodas. Foi aprovada no exame 133, da Ordem dos Advogados do Brasil, OAB/SP, realizado em agosto de 2007, em que 84,1% dos 17.871 candidatos foram reprovados. É uma façanha estupenda, sem dúvida. Segundo o presidente da OAB, em São José dos Campos, Luiz Carlos Pêgas, "a aprovação de Flávia foi um marco. A OAB, em São Paulo, sempre defendeu os fisicamente limitados, mas não tinha advogados com paralisia cerebral.

Mais um extraordinário exemplo é Alisson Fernandes dos Santos, que defendeu dissertação de mestrado na Universidade Federal do Paraná UFPR (auxiliado por um intérprete). Com problema congênito que lhe causou surdez profunda bilateral ele se comunica apenas via leitura labial. Alisson concluiu o mestrado aos 32 anos. Formado em farmácia e bioquímica, pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), acabou de receber o título de mestre em ciências farmacêuticas com ênfase em análises clínicas pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e é o primeiro aluno surdo a receber o título na instituição. 

O orador e notório escritor espírita, Jerônimo Mendonça, foi um excelso modelo de auto superação em face dos limites físicos de que era portador. Completamente paralítico por mais de três décadas, sem mover nem o pescoço, cego por mais de vinte anos, com artrite reumatóide que lhe produzia dores agudas no peito e em todo o corpo, era carregado por mãos amigas por todo o Brasil a fora para proferir palestras. Acamado no leito ortopédico, depois de perder o movimento das pernas, dos braços e a visão, Jerônimo criou uma gráfica, escreveu 5 livros, gravou 2 LP’s (discos de vinil) e em 1983, fundou algumas instituições espíritas. Era amigo de Roberto Carlos, amizade que induziu ao “Rei” a colaborar materialmente para que Jerônimo fundasse a mais importante obra assistencial de sua vida, o Lar Espírita Pouso do Amanhecer, em Ituiutaba, Minas Gerais, que atendia desde então 200 crianças carentes diariamente.

Como não citar Antônio Francisco Lisboa, "o aleijadinho", vítima de uma hanseníase deformante, mas isso não o impediu de insculpir diante da Igreja do Santuário do Senhor do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo/MG, 66 estátuas da via Crucis, em cedro-rosa e 12 estátuas dos profetas, em pedra-sabão, entre outras obras-primas do barroco brasileiro. 

Os preceitos espíritas nos remetem a entender que somos sempre herdeiros de nós mesmos, motivo pelo qual é importante que nos esforcemos, a fim de irmos mais além dos limites e crescermos emocionalmente, amadurecendo conceitos e reflexões, aspirações e programas reencarnatórios, cuja materialização nos submetemos.


Em face disso e por força das leis que governam os destinos, cada criatura “normal” ou “deficiente física” está ou estará em luta consigo mesma, a seu modo, consoante seu quadro provacional, adquirindo a ciência do esforço, e dentro da grade dos sentidos fisiológicos e ou espirituais cada qual receberá gloriosas recompensas noutras oportunidades de trabalho para que em todas as ocasiões possa exemplificar os valores da auto superação.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

AGRESSÃO SEXUAL, ABSURDOS HUMANOS E ORAÇÃO (Jorge Hessen)


Jorge Hessen

Estima-se que, em média, o número de estupros é de mil por um milhão de habitantes/dia. Alguns cientistas presumem uma cifra 40 vezes maior. Possivelmente ocorram, a cada dia, de 7 a 140 milhões de estupros no mundo ou, por ano, entre 2,5 bilhões e 100 bilhões. Para o psicólogo e escritor Alexandre Bez, o estuprador retira do ato um prazer baseado em uma "perversão sexual", cujos sentimentos tendem para raiva, sensação de poder e sadismo imperativo. Ao violentar sexualmente uma mulher, o indivíduo destrói a existência da vítima, causando diversos danos como: a falta de concentração, transtornos de ansiedade, insônia, desordens alimentares, perda de memória (o que possibilita não reviver o trauma), exclusão da vida social e possíveis tentativas de suicídio. [1]

O recente fato ocorrido na cidade do Rio de Janeiro, onde uma adolescente de 16 anos foi violentada sexualmente por mais de 30 homens, em uma sessão de estupro coletivo, vem gerando revoltas e protestos no Brasil com ampla repercussão internacional. É assombroso ver notícias como esta estampadas na imprensa mundial. Como é que em pleno século XXI ainda acontece algo dessa natureza? Entre aberrações morais existentes, principalmente no domínio da sexualidade, um dos mais nefastos e assombrosos é, sem nenhuma dúvida, a conjunção carnal forçada, imposta pela força física ou pela coação moral (psicológica). Tradicionalmente, onde impera o tráfico de armas e drogas, o estupro em massa de uma mulher, seja ela jovem ou apenas pré-adolescente em processo de transformação, encaminhando-a para a devassidão é uma prática corriqueira e, do ponto de vista dos marginais traficantes e cafetões, absolutamente necessária para conseguir a sua adaptação na prostituição.

A violência sexual é o fruto apodrecido da animalidade humana. A melhor maneira de tornar uma sociedade justa e altruísta é a educação das gerações jovens. Lamentavelmente nunca se buscou tanto “prazer” sexual como na época presente. São jovens na desmoralizada troca de companheiros e muitos casais mergulhados na desventura extraconjugal. Será que o ser humano necessita tanto assim de “prazer sexual”? Será que tal “prazer” constitui o amor? Obviamente não, pois a manifestação dos impulsos sexuais é um fenômeno mecânico e biológico de atração magnética, enquanto que o amor é um anseio sublime. O sexo é apenas um instrumento de sensações. Quando a sexualidade é abastecida pelas emoções excelsas do amor, ilumina o ser; contudo, sem a higienização desta carga erótica, ela aflige a mente e cristaliza a emoção.

Na violência sexual, será que a vítima está quitando moralmente o pretérito delituoso? Óbvio que não! Pois nem todas as tribulações que experimentamos na vida foram previstas ou escolhidas por nós. A escolha se resume ao gênero da prova. O Espírito de Verdade nos adverte: "Se o Espírito quis nascer entre malfeitores, por exemplo, sabia a que tentações se expunha, mas ignorava cada um dos atos que viesse a praticar. Estes atos são efeito de sua vontade, ou de seu livre arbítrio." [2] O estupro, assim, não pode estar dentro de uma programação reencarnatória. Entretanto, em advindo, vítima e agressor submetem-se às Leis de Deus, sujeitos à apreciação espiritual do assunto, derivando para a vítima, por padecer a prova com bravura e paciência, condição de evolução espiritual e, para o estuprador, dolorosa trilha de restauração do erro, ansiando contar ainda com o perdão da vítima como forma de ajuda para superação das próprias deficiências morais.

E para nós, que nos insurgimos revoltados quando conhecemos os episódios de estupro, bradando por justiça “vingativa”, saibamos que nada resiste aos desígnios da Lei do Criador e, antes de nos fazermos implacáveis juízes dos criminosos, observemos a mensagem de Jesus que disse para os condenadores da mulher adúltera: "atire a primeira pedra". Importa que nos abriguemos na oração inclusive em favor dos criminosos, a fim de que os mesmos possam sair da situação em que se encontram, refletindo os seus crimes, requerendo igualmente nova oportunidade de arrependimento, reparação e expiação, visando seu adiantamento espiritual.

Em face desses dantescos panoramas, e em que pese os contrastes da vida social, considerando as várias culturas terrenas, naturalmente Deus não abdicou do comando dos mundos. Há uma ordem nas coisas e não estamos abandonados pelo Governador da Terra e pelos Operários divinos da espiritualidade, que acompanham cada acontecimento e oferecem sempre a oportunidade de melhoria para o violador das leis e o amparo ao que sofre uma ação perversa dos criminosos. 

É ocasião de silenciar e exorar misericórdia ao Criador, posto que agindo assim estaremos contribuindo com a magna obra do Evangelho.

Referências:

[2] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 258 a 273, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1999

quarta-feira, 25 de maio de 2016

EXPERIÊNCIA “PRÉ-MORTE” SANCIONA IMORTALIDADE - Jorge Hessen

Lars Grael, iatista brasileiro
Jorge Hessen


Em 1998, durante uma regata, Lars Grael, iatista brasileiro, detentor de 2 medalhas olímpicas, teve 2 paradas cardíacas após sua perna direita ter sido decepada por uma lancha que o atropelou quando velejava em Vitória. Ao ser amputada a sua perna e perder muito sangue, Grael teve paradas cardíacas e conheceu uma experiência de quase-morte. Nas palavras do próprio Lars, “foi uma experiência muito difícil de descrever”. O médico José Carlos Ramos de Oliveira, outro sobrevivente de parada cardíaca, endossa a sensação de Lars: “só quem passou por isso sabe o que é uma “experiência de quase morte”. Outro caso foi a de Maria Aparecida Cavalcanti , radialista e professora universitária em São Paulo, que afirma ter passado por 3 “experiências de quase-morte”. O relato abaixo se refere à segunda dessas experiências, ocorrida depois de um desastre automobilístico em Santa Catarina, em 1994.

"No momento do acidente, eu me senti tragada por um ‘túnel de vento’. Fiquei flutuando no asfalto e vendo o carro capotar num barranco. Outro carro parou e 3 homens saíram dele. Um deles desceu o morro e disse: ‘Tem uma mulher morta ali’. Era eu. Não tive nenhum choque ao ver o corpo – apenas lamentei, em pensamento, o que tinha sofrido. Fora do corpo, conseguia enxergar em todas as direções ao mesmo tempo. Então eu avistei 2 pessoas flutuando acima do morro. Uma delas era uma mulher morena. A outra, a silhueta de um homem alto, me pareceu conhecida – apesar de ser transparente. A moça esticou o braço direito e disse, sem mexer a boca: ‘tenha calma; isso está na sua programação’. Essa frase funcionou para mim como uma senha. Era como se eu resgatasse toda a minha memória. Deslizei em direção à dupla, mas lembrei que meu único filho de 12 anos estava sozinho num chalé sem vizinhos e sem telefone. Alguém precisava resgatá-lo. Nesse mesmo instante, fui tragada de novo pelo túnel e voltei ao corpo. Daí senti uma dor horrível. Foi o único jeito de avisar a família sobre o acidente e resgatar meu filho."[1]

O Dr. Raymond Moody popularizou o termo "experiência de quase-morte" em seu livro "Vida após a vida", escrito em 1975. Posteriormente, em 1982, o pesquisador George Gallup Jr. e William Proctor publicaram a "Aventuras na imortalidade", um livro que aborda a "experiência de quase-morte" baseado em duas pesquisas do Instituto Gallup, refletindo especificamente a quase morte e a crença na vida após a morte. Outro distinto estudioso Kenneth Ring, um dos mais prolíficos pesquisadores e autores de estudos sobre "experiência de quase-morte", relata um grande número de indivíduos que adquiriram autoconfiança e se tornaram mais extrovertidos após a experiência. Kenneth também verificou que as pessoas que passam por "experiência de quase-morte" tendem a perceber um aumento no senso de sentimentos religiosos e crença em um mundo espiritual. 

As teorias que explicam as “experiências de quase-morte" caem em duas categorias básicas: explicações científicas (incluindo médicas, fisiológicas e psicológicas) e explicações transcendentes (incluindo espirituais e religiosas). Obviamente, essas últimas não podem ser provadas nem negadas. A explicação metafísica mais comum é que alguém que passa por uma "experiência de quase-morte" está, na verdade, experimentando e lembrando de coisas que aconteceram com sua consciência não corpórea (espiritual). 

É natural que a ciência clássica – cuja realidade só admite o que pode ser observado e medido – não corrobora a retórica mística, mas não oferece meios de resolver essa questão, os cientistas têm tão-somente comprovado que as drogas cetamina [2] e PCP (cloridrato de fenciclidina), por exemplo, podem criar sensações nos usuários que são quase idênticas a muitas "experiências de quase-morte". Obviamente, isso apenas raspa a superfície das explicações possíveis para uma "experiência de quase-morte". 

Relatos sobre visões do que ocorre 'do lado de lá' são tão antigos quanto às pirâmides egípcias, às epopéias gregas e aos registros das civilizações indianas e chinesas. Na obra “República”, de Platão narra-se a história de um soldado morto pelo inimigo que viajou para a Terra dos Mortos, mas foi proibido de beber do Rio do Esquecimento porque tinha que retornar à vida. Relatos mais atuais de visões perto da morte foram feitos por Ernesto Bozzano em 1908, descreveu que muitas pessoas, em seu leito de morte, afirmavam ver pessoas conhecidas que já haviam morrido. Em 1927, o físico inglês sir William Barrett, membro da Royal Society, publicou o livro Deathbed Visions, no qual relata que essas pessoas não só viam parentes e amigos falecidos, mas contavam histórias de outros mundos. Na década de 1960, o parapsicólogo americano Karlis Osis fez um estudo-piloto sobre essas visões e encontrou algumas coincidências, como o fato de a maioria dos testemunhos se referir a conversas com pessoas já mortas.

Para alguns pesquisadores tais experiências sugerem a existência da mente, ou consciência, independentemente do cérebro, ou mesmo da existência e sobrevivência da “alma”. Obviamente que outros pesquisadores, os materialistas, têm convicção de que tais experiências são apenas o produto de um cérebro em estado fisiológico alterado. Naturalmente isso não invalida suas pesquisas , pois os Benfeitores do Além explicam que “assim como o Espírito atua sobre a matéria, também esta reage sobre ele, dentro de certos limites, e que pode acontecer impressionar-se o Espírito temporariamente com a alteração dos órgãos pelos quais se manifesta e recebe as impressões”. [3]

A Doutrina Espírita fornece elementos que permitem concluir que muitas das “experiências e quase morte” resultam do desligamento parcial do perispirito. Na questão 157 de O Livro dos Espíritos , Kardec indagou: No momento da morte, a alma sente, alguma vez, qualquer aspiração ou êxtase que lhe faça entrever o mundo aonde vai de novo entrar? Os Espíritos alumiaram o tema respondendo: “Muitas vezes a alma sente que se desfazem os laços que a prendem ao corpo. Já em parte desprendida da matéria, vê o futuro desdobrar-se diante de si e goza, por antecipação, do estado de Espírito.”[4]. Na questão 407 o Codificador perguntou: É necessário o sono completo para a emancipação do Espírito? Os Seres do Além responderam: “Não; basta que os sentidos entrem em torpor para que o Espírito recobre a sua liberdade. Desde que haja prostração das forças vitais, o Espírito se desprende, tornando-se tanto mais livre, quanto mais fraco for o corpo.” [5] Além disso, na questão 424 o mestre lionês esquadrinhou de forma sutil: Por meio de cuidados dispensados a tempo, podem reatar-se laços prestes a se desfazerem e restituir-se à vida um ser que definitivamente morreria se não fosse socorrido? A resposta dos Espíritos: “Sem dúvida e todos os dias tendes a prova disso.”[6]

A morte não é mais a mesma. Hoje um coração parado não significa que seu dono vá, necessariamente, passar para o “lado de lá”. Graças a uma série de procedimentos médicos e um aparelhinho chamado desfibrilador, uma parcela razoável de pacientes dados como mortos tem sido “ressuscitada” nas UTIs mundo afora. Várias dessas pessoas têm histórias para contar. São histórias que desconcertam a ciência com perguntas muito difíceis – e que só agora começam a ser respondidas. As "experiências de quase-morte" parecem oferecer alguma esperança de que a morte não é necessariamente algo a ser temido, nem é o fim da consciência. Mesmo a ciência tem dificuldades para lidar com a morte - a comunidade médica tem se debatido por décadas com definições específicas para morte clínica, morte orgânica e morte cerebral. 

Nota e referências bibliográficas: 



[1] Disponível em < http://super.abril.com.br/ciencia/na-fronteira-da-morte > acesso no dia 21/05/2016
[2] É uma droga dissociativa usada para fins de anestesia, com efeito hipnótico e características analgésicas
[3] Kardec Allan. O Livro dos Espíritos, questão 374a, Rio de Janeiro: Ed. FEB 2001
[4] Idem questão 157
[5] Idem questão 407
[6] Idem questão 424

sexta-feira, 20 de maio de 2016

SEXISMO E ESPIRITISMO (Jorge Hessen)




Nicola Thorp, uma britânica de 27 anos, foi contratada em regime temporário na empresa PwC, e seus empregadores disseram que ela teria de usar sapatos com salto de "5 a 10 centímetros" de altura. Durante o período de estágio, Nicola se recusou a usar salto e reclamou que os funcionários masculinos não tinham obrigações equivalentes. Além do fator extenuante, é uma questão de sexismo, afirmou. Resultado: foi demitida. Thorp disse que a empresa deveria refletir melhor a sociedade moderna, pois hoje em dia as mulheres podem ser elegantes e formais e usar sapatos sem salto. Na opinião de Frances O'Grady, secretária-geral da União de Sindicatos da Grã-Bretanha, TUC, um código de vestimenta que exige saltos altos "cheira a sexismo”.[1]

O Sexismo é um neologismo oriundo do termo inglês sexism, que se refere ao conjunto de ações e ideias que privilegiam determinado gênero ou orientação sexual em detrimento de outro gênero (ou orientação sexual). De maneira geral, o termo é usado como exclusão ou rebaixamento do gênero feminino. Trata de uma posição que pode ser praticada tanto por homens quanto por mulheres, portanto, o sexismo está presente intragêneros tanto quanto intergêneros.

Para a Psicologia, o sexismo é um ideário, construído social, cultural e politicamente, em que um gênero ou orientação sexual tenta se sobrepor ao outro. Em relação ao preconceito contra mulheres, diferencia-se do machismo por ser mais consciente e pretensamente racionalizado, ao passo que o machismo é muitas vezes um comportamento de imitação social. 

O sexismo muitas vezes está ligado à misoginia, que por sua vez, sendo uma palavra que vem da junção de duas palavras gregas, miseó e gyné (ódio e mulher, simultaneamente), se enquadra para designar o desprezo ou ódio pelo gênero feminino e pela feminilidade, ou seja, as características ligadas às mulheres. Está diretamente relacionada à violência contra a mulher, seja de forma física, verbal ou discriminatória, e possui como antônimo a filoginia que é o apreço e admiração pelas mulheres, e pode, em alguns casos, ser considerada como um preconceito benevolente.

É verdade! Há pessoas que promovem atitudes sexistas contra seu próprio gênero. A forma como a cultura age no imaginário coletivo permite que seja possível encontrar mulheres que defendam que "lugar de mulher é na cozinha", ou homens afirmando que "marido que não procura trabalho é vagabundo", assim como há mulheres e homens que se contrapõem a tais ideários, indistintamente. 

Apesar das discussões políticas, midiáticas e acadêmicas sobre igualdade de gênero travadas nas últimas décadas, muitas ideias sexistas ainda permeiam a cultura brasileira e explicam parte das diferenças sociais, econômicas, ocupacionais e comportamentais entre os gêneros.

Notemos as convenções das seguintes frases: “homem não chora, porém mulher é sentimento”; “homem é livre, porém mulher é dependente”; “homem é provedor, porém mulher é provida”; “homem é cérebro, razão, mas mulher é coração, emoção”; “homem é força, porém mulher é lágrima”; “homem é herói, contudo mulher é mártir”; “homem pensa, todavia mulher sonha”; ou frases mais poéticas como: “homem é oceano, porém mulher é lago”; “ homem é águia, e voa, mas mulher é rouxinol, e canta”; “ homem domina o espaço, contudo mulher conquista a alma”, “homem tem consciência, no entanto mulher tem esperança”.

Observemos nas frases acima que a poesia de Vitor Hugo está representada. Alcança-se que há aí profunda associação à masculinidade fincada ao poder, saber e força. E que tudo o que se refere à mulher assinala-se pela fraqueza, subordinação e inferioridade. Aparentemente, contrastes sexistas nesses moldes igualam homem e mulher, mas vistos com olhos críticos eles perpetram o desrespeito às diferenças, cravam a desigualdade entre os sexos e imprimem a injustiça nas relações entre homem e mulher.

A sociedade institui, regulariza e nutre papéis sociais identificados com os sexos e reveste as crianças nesse ideário como numa camisas-de-força. Estas não são abrigadas pelo que elas são, mas pelo que o adulto quer que elas sejam. Daí a prática sexista, desde a infância. Menino marcha com o pai, joga com o professor e associa-se a grupos de meninos. Menina vive com a mãe, brinca com a professora e convive com meninas. Menino é conquistador, menina é chorona. Menino pega peso, menina lava prato. Menino tem carrinho, menina ganha boneca. Bota é para menino, menina usa sandália. Brinco e cabelo comprido são para ela, eles usam cabelo curto e usam armas para brincar. Aí está: chegamos à raiz da violência, monopólio do homem, que vitimiza a ambos. [2]

Se programas de educação não sexista forem implementados na Terra, avançaremos muito para que as diferenças entre homem e mulher não se transformem em desigualdades e em injustiças. Os Benfeitores Espirituais, na época da Codificação, também denunciaram o sexismo, racismo, pena de morte, escravidão e qualquer outra forma de injustiça social e preconceito como sendo contrários às Leis Divinas, e recomendavam liberdade de pensamento, liberdade de consciência, igualdade de tolerância.

Observemos que Kardec arguiu os Espíritos se são iguais perante Deus o homem e a mulher e têm os mesmos direitos. Os Mentores afirmaram que Deus outorgou a ambos a inteligência do bem e do mal e a faculdade de progredir. O Codificador persistiu com os seres do além sobre a origem da desqualificação moral da mulher em alguns países. Os Espíritos elucidaram que era do predomínio injusto e cruel que sobre ela assumiu o homem. É resultado do abuso da força sobre a fraqueza. Entre homens moralmente pouco adiantados, a força faz o direito. [3]

Apostilando ainda sobre o tema, o Codificador questionou sobre a razão da mulher ser mais frágil que a do homem, e foi aclarado pelos Benfeitores que justificaram que tal situação é para determinar funções especiais. Para o homem, por ser o mais forte, os trabalhos rudes; para a mulher, os trabalhos leves; para ambos o dever de se ajudarem mutuamente a suportar as provas de uma vida cheia de amargor. 

O professor lionês ainda cogitou se a fraqueza física da mulher a colocaria naturalmente sob a dependência do homem. Os Espíritos exemplificaram que Deus a uns deu a força, para protegerem o fraco e não para o escravizarem. O Criador apropriou a organização de cada ser às funções que lhe cumpre desempenhar. Tendo dado à mulher menor força física, deu-lhe ao mesmo tempo maior sensibilidade em relação com a delicadeza das funções maternais e com a fraqueza dos seres confiados aos seus cuidados. [4]

Ora, as funções a que a mulher é destinada pela Natureza tem importância tão grande quanto as deferidas ao homem, e maior até. É ela quem lhe dá as primeiras noções da vida. Kardec garantiu que uma legislação, para ser perfeitamente justa, deve consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher. Os Espíritos reforçaram que para ser equitativa, a lei humana deve realmente consagrar a igualdade dos direitos do homem e da mulher, porém não das funções. 

Preciso é que cada um esteja no lugar que lhe compete. Ocupe-se do exterior o homem e do interior a mulher, cada um de acordo com a sua aptidão. Os sexos, além disso, só existem na organização física. Visto que os Espíritos podem encarnar num e noutro, sob esse aspecto nenhuma diferença há entre eles. Devem, por conseguinte, gozar dos mesmos direitos. [5

Referências bibliográficas:

[1] Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/geral/2016/05/160512_salto_alto_polemica_fn acesso 15/05/2016
[2] Disponível em https://www.emaze.com/@ALWCTWI/Revolu%C3%A7%C3%A3o-Feminina acesso 16/05/2016
[3] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001, perg. 817 e 818
[4] Idem perg. 819 e 820

[5] Idem perg. 821 e 822

quinta-feira, 19 de maio de 2016

BREVÍSSIMA REFLEXÃO HISTÓRICAS SOBRE UM “ CRISTIANISMO” SEM JESUS (Jorge Hessen)




Jorge Hessen

Jesus Cristo nos trouxe uma mensagem de paz, de amor, de justiça e de tolerância; uma mensagem de caráter permanente; uma mensagem cujos postulados soergue e anima. A partir de Sua mensagem o deus parcial, rancoroso e vingativo que extravasava o delírio da sua cólera, passou a ser suplantado pelo Criador de infinita misericórdia, de justiça e de perdão. Porém, Sua mensagem, que exonerou dos altares o rancoroso deus Jeová, Senhor dos Exércitos, que punia inclusive os erros dos pais nos filhos durante muitas gerações, tempos depois, transformou-se num guante pesado. A História o demonstra.

No século XIII, ao Sul da França, nos arredores da cidade de Albi, propagava-se uma seita religiosa de origem eslava considerada herética pela Igreja romana. Seus adeptos eram alcunhados “albigenses” (naturais de Albi) ou mais propriamente, “cátaros” (termo grego que significa puros). Nesse contexto, o papa Gregório IX organizou um tribunal especificamente dedicado a tratar a heresia dos albigenses. Um dos movimentos que mais tinha certas ligações com os cátaros era a Ordem dos Templários, criado na Palestina nos rastros das cruzadas, e que representava uma associação militar de cunho religioso , oficialmente criada para proteger as peregrinações militar-religiosas e responsável pela guarda e câmbio de bens, mas igualmente aberta ao estudo e discussão de assuntos “místicos”. 

Entretanto, a Ordem de São Domingos foi convocada para dizimar os Cátaros e os dominicanos fizeram com que a ação desse famigerado tribunal se propagasse impiedosamente a todo mundo cristão. Sobretudo na Itália e na Espanha o tribunal tomou o conhecido nome do “Santo Ofício”, que se transformou numa instituição poderosíssima onde se distinguiram pela crueldade os inquisidores Torquemada e 

No episódio das cruzadas, em que milhões de "bravos soldados do Cristo", partindo da França, da Inglaterra, da Itália, da Espanha sob o comando de Urbano II, que propunha aos seus seguidores banharam-se no sangue dos "infiéis" (violadores dos lugares santos da Palestina). Movimento que esse que prenunciou a terrível Cruzada ulterior contra as Consciências – a abominável "Inquisitione". 

Os documentos históricos minutam suas bárbaras atrocidades: Giordano Bruno é queimado vivo em Roma no campo Fiore. Galileu teve que negar a tese heliocêntrica e torna-se um prisioneiro em seu próprio domicílio, Tommaso Campanella é ´perseguido durante 27 anos, sofre numa masmorra pelo terrível crime de querer pensar em LIBERDADE! João Huss foi condenado à fogueira por ter proposto trinta e nove questões religiosas que o Concílio de Constança julgou heréticas. Jerônimo de Praga, Vanini e Savanarola tiveram a mesma sorte que Huss. Muitos outros mártires mantiveram a luta pela emancipação do pensamento. Até que na Renascença bradou-se o grito de liberdade intelectual do homem. Essa aurora alvissareira ofuscava os monstros do obscurantismo e da tirania do cristianismo da época.

Tendo sedimentado seu total controle na Europa ocidental, a Igreja romana constituía-se em uma instituição poderosa econômica, política e militarmente. Constituía-se num gigantesco feudo, proprietária de dois terços das melhores terras produtivas da Europa e sua organização impunha uma violenta censura e controle material , espiritual e intelectual (ou crer ou morrer), submissão total à autoridade eclesiástica, etc. Em brutal e explícita oposição à boa convivência humanista dos primeiros cristãos, a Igreja de Roma punha-se com toda a violência que dispunha contra todos os que questionassem a legitimidade de tais empreendimentos brutais.

Enfim, difícil, dificílimo mesmo! É compreendermos esses fatos históricos do Cristianismo (sem Jesus), porquanto o Mestre galileu ensinou-nos o amor ao próximo, incluindo aí os inimigos; Convidou-nos a fazermos o bem aos que nos odeiam; A Orarmos pelos que nos perseguem e caluniam. Por tudo isso, asseguramos que a missão do Espiritismo, tanto quanto o ministério do legítimo Cristianismo (com Jesus), não será destruir as escolas de fé, até agora existentes.

O Messias de Nazaré acolheu a revelação de Moisés. A Doutrina dos Espíritos respeita os princípios fidedignos de todos os sistemas religiosos. Jesus respeitou os antigos Profetas. O Consolador Prometido não veio ao mundo para perseguir os pioneiros dessa ou daquela forma de crer em Deus, até porque, as cruzadas espíritas são peregrinações sublimes de paz, amor e caridade, sim! O Espiritismo é, acima de tudo, o processo libertador das consciências, a fim de que a visão do homem alcance horizontes amplos de luz.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

MORTE, UM TEMA QUE AINDA GOLPEIA ANSEIOS E AFLIGE SENTIMENTOS (Jorge Hessen)



Jorge Hessen

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O homem contemporâneo, que investiga desde o micro ao macrocosmo, cambaleia, ante os vestíbulos da sepultura com a mesma amargura dos egípcios, dos gregos e dos romanos de épocas recuadas. Os milênios que arrasaram civilizações e refundiram povos, não transformaram a emblemática expressão do túmulo. Infinitos ponto de interrogação, a morte continua ferindo sentimentos e torturando inteligências. O homem tem sentido perturbação e temor perante a expectativa da desencarnação. E esse receio tem sido alimentado por uma mistura de falsos conceitos religiosos, senso comum e crenças pessoais arraigadas.

O problema do medo da morte é que ele pode impedir que se tenha encanto na vida e minar a confiança de que a vida tenha maior significado. As religiões textualistas são especialmente responsáveis por gerar uma série de fobias e mitos a respeito da inevitável viagem ao túmulo. A má formação religiosa tem deixado muitas pessoas confusas a respeito da situação dos mortos no além-tumba. Os destinos, que incluem o céu, inferno, purgatório, limbo, vão desde o misterioso até o absolutamente assombrador. Por outro lado, obra Death -The Final Stage of Growth afiança que a morte é uma parte integrante da nossa vida, é normal, é o fim natural de todos os organismos vivos. Tal crença materialista, por sua vez tem fomentado uma filosofia niilista e o comportamento pessimista.

Há pessoas que sofrem de tanatofobia (receio mórbido da morte). Psicólogos têm examinado os efeitos mentais e sociais causados por pensar na morte. Segundo alguns, pensar na morte nos torna mais nacionalistas, mais preconceituosos e reforça atitudes igrejeiras ou inconscientemente religiosas, bem como afetam as crenças políticas. Narram que a morte nos deixa mais punitivos e conservadores. A lembrança da morte alimenta o desejo por fama comumente associado a uma imortalidade simbólica, daí a busca pela imortalidade nas tais academias de letras.

Será que pensar mais na morte pode nos tornarmos mais punitivos e preconceituosos? Talvez n’alguns tais efeitos possam ocorrer justamente porque estejam desacostumados a pensar e falar sobre a morte. Entendemos que pensarmos diariamente sobre a inexorável lei da desencarnação podem nos tornar mais sóbrios diante dos desafios do dia-a-dia. Reconhecemos além disso que o viver tentando ocultar na consciência a futura desencarnação demonstra uma evidente pusilanimidade diante dos necessários obstáculos da reencarnação.

O problema do medo da morte é que ele pode impedir que tenhamos liberdade e prazer de viver. Daí o conforto que a Doutrina Espírita nos traz, ao instruir sobre a vida do espírito aqui e no além. Somos espíritos eternos, nossa vida não principia nem termina em uma única existência. Da mesma forma, as legítimas afeições são para sempre. As afeições não morrem com a desintegração do corpo físico. Os sentimentos não pertencem ao corpo, mas ao espírito e os transportamos conosco. A morte apenas dilata as concepções e nos aclara a introspecção, iluminando-nos o senso moral, sem resolver, obviamente, de maneira absoluta, os problemas que o Universo nos propõe a cada passo, com os seus espetáculos de grandeza.

A desencarnação é a única regra para a qual não há exceção. Todos pereceremos, portanto não há como iludirmos o pensamento tentando camuflar esse impositivo da natureza. Em face disso, permitamos que o pensamento sobre a “morte” componha de forma ininterrupta e serena nossos estados mentais, reflexão sem a qual estaremos desaparelhados para a desencarnação ou até despreparados para enfrentarmos com resignação a “morte” dos nossos entes queridos.

A “morte” física não é o extermínio das aspirações e anseios no bem, porém o ingresso para a existência autêntica, para a vida real. Sim! A existência física é ilusória, fugaz, transitória demais. A separação do corpo pela “morte” não é uma anomalia da natureza. Simplesmente transfere-se da dimensão física, para o ambiente espiritual. Todavia, efetivamente, importa refletir que “morrer” (término da vida biológica) e desencarnar (desligamento do perispírito) são fenômenos que nem sempre acontecem simultaneamente. Os intervalos de tempo para desligar-se do corpo variam para cada Espírito. Para uns podem ser mais demorados, para outros podem ser passagens ligeiras.

Nossas ações tecem asas de libertação ou grilhetas de cativeiro, para a nossa vitória ou nossa perda. A maior surpresa da morte física é a de nos colocar face a face com própria consciência, onde edificamos o céu, estacionamos no purgatório ou nos precipitamos no abismo infernal, nesse sentido a ninguém devemos o destino senão a nós próprios.

O intervalo de tempo entre a “morte” biológica e a desencarnação tem relação direta com os pensamentos e ações praticados enquanto encarnado. Ninguém topará com o “céu” ou o “inferno” do lado de “lá”, porquanto o “empíreo” e a “geena” são conteúdos mentais construídos aqui no plano físico. Após o fenômeno da desencarnação cada Espírito irá deparar com o cárcere ou a liberdade de consciência a que faz merecer como fruto do desleixo ou disciplina mental que cultivou durante a experiência física.

São indescritíveis flagelações no além, que vão da inconsciência descontínua à loucura completa, senhoreiam as mentes torturadas, por tempo variável, conforme as atenuantes e agravantes da culpa, induzindo as autoridades superiores a interna-las no plano físico (reencarnação), quais enfermos graves, em celas físicas de breve duração, para que se reabilitem, gradativamente, com a justa cooperação dos Espíritos reencarnados, cujos débitos com eles se afinem. Os endividados que se afundaram nos excessos, nas viciações, nos prazeres mundanos, cunham intensas impressões e vínculos magnéticos na matéria, e unicamente alcançarão a liberação desses laços após um intervalo de tempo muito longo. Lembrando que mesmo após a ruptura dos embaraços magnéticos, que o algemavam à vida física, padecerá no além, por tempo indefinido, os tormentos disseminados nas vias de suas experiências no mal (eis aí a símbolo do inferno).

Já os que vivem com mais dedicação às coisas do Espírito, esses encontram maiores elementos de paz e felicidade no futuro. Todos os que alcançaram aproveitar a encarnação, sem viciações e apegos, os que cumpriram a lei de amor, tornam-se menos densos os laços magnéticos que prendem o Espírito ao corpo. Nesse caso, a desencarnação será rápida, proporcionando adequada liberdade, até mesmo antes de sua consumação. Para os que sofreram mais, em razão da sua renúncia aos apelos da vida mundana, a morte é um remanso de tranquilidade e de esperança. Encontrarão no além a paz ambicionada nos seus dias de lágrimas torturantes (eis aí a metáfora do céu).

quarta-feira, 4 de maio de 2016

MOLÉSTIA MENTAL EXPLICADA SOB O PONTO DE VISTA ESPÍRITA (Jorge Hessen)


Jorge Hessen

A jovem britânica Sara Green tinha um amplo histórico de problemas de saúde mental desde os 11 anos de idade. Ela gostava de escrever em seu diário, relatando as dificuldades que enfrentava no dia a dia. Aos 17 anos de idade, foi internada numa clínica psiquiátrica na Inglaterra para tratamento, mas acabou suicidando-se por automutilação, numa das unidades de tratamento especial.

Antes de ser internada, Sara foi vítima de bullying no colégio. Em face disso, se autoflagelava para tentar aliviar sua consternação. Cria que os colegas não a aceitavam na escola, que a odiavam pelo que era, mas expunha que não se gostava também. Green não conseguia entender como se deixou ser afetada nesse nível de anulação da autoestima.

Enquanto esteve internada, as automutilações se agravaram. O caso de Sara não é único. Serviços de saúde mental, seja no Reino Unido ou em outros países, têm demonstrado falhas ao lidar com crianças e adolescentes portadoras de distúrbios mentais. Segundo a ONG Inquest, somente na Inglaterra, desde 2010 nove jovens morreram durante internações em clínicas de tratamento psiquiátrico.

Não trataremos as eventuais falhas da clínica inglesa. Explanaremos rapidamente sobre os transtornos, as automutilações ou autolesões. Tais ocorrências são associadas a um distúrbio psicológico conhecido como Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), classificada pelo psicanalista Adolph Ster como uma patologia entre a neurose e psicose que gera uma disfunção no metabolismo cerebral, desintegrando o ego e gerando um sentimento de perda desesperador.

A literatura específica anota que os sintomas (TPB) costumam surgir durante a adolescência, permanecendo por aproximadamente uma década na maioria dos casos. As pessoas acometidas desse transtorno sentem uma necessidade enorme de autopunição pelos insucessos e frustrações pessoais na vida cotidiana. Os pesquisadores acreditam que pode ter origem genética também associada a fatores traumáticos durante a infância ou adolescência, como possíveis abusos sexuais, negligências, separações e orfandade.

A pessoa acometida do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) sente alívio emocional cada vez que se machuca. Entre os frequentes ferimentos associados estão: esmurrar-se, chicotear-se, enforcar-se por alguns instantes, morder-se, apertar ou reabrir feridas, arrancar os cabelos, queimar-se, furar-se propositalmente com objetos pontiagudos, beliscar-se, ingerir agentes corrosivos e objetos, envenenar-se por overdose de remédios ou produtos químicos (sem intenção de suicídio), bater com a cabeça na parede, esmurrar superfícies duras.

O fato é que a ciência clássica não alcança elucidar suficientemente as razoáveis causas dos distúrbios psicológicos e mentais. A psiquiatria se mantém aprisionada aos limites do cérebro, fonte que, como nós espiritas sabemos, não é a raiz essencial das patologias mentais, mas tão somente a exteriorização do efeito da enfermidade.

Gostem ou não, aceitem ou não, em verdade, o Espiritismo abalou as estruturas da ciência mecanicista vigente e trouxe uma insurreição no campo das idéias materialistas, inovando as considerações religiosas e científicas. A ideia da existência de um ente extra físico (Espírito) pôde elucidar a origem de muitos enigmas patológicos da psiquê.

Nesse sentido, o Espiritismo avança muito mais ao debater e analisar racionalmente a Lei da reencarnação, explicando a questão dos vínculos de causas atuais e passadas das doenças. A Lei de causa e efeito amplia o debate e auxilia a compreender, por exemplo, que a vida presente é reflexo do que temos sido até hoje, incluindo aí as nossas experiências pretéritas (reencarnações anteriores).

Os atuais quadros psicopatológicos devem ser analisados sob esse prisma (causa e efeito), como reflexo dos distúrbios morais de vidas anteriores, considerando sua manifestação de uma forma invariavelmente dramática, trazendo sofrimento tanto para o doente como para a família; daí concluir-se que realmente signifique repercussão de desvios éticos das existências pregressas.

A partir do momento da concessão da reencarnação com todas as fases, durante e após a concepção, o reencarnante imprime as suas necessidades e heranças genéticas nas moléculas de DNA do novo corpo físico, comprometendo ou até mesmo potencializando as funções dos neurotransmissores cerebrais. As experiências de vidas anteriores do Espírito, portanto, são os legados trazidos e construídos por si mesmo, plasmando-se-lhe o fadário. Se houver sincero desejo de redimir-se das faltas, o mecanismo da Lei de causa e efeito aplica-lhe o abrandamento correspondente aos ecos dos deslizes morais que lhe pesam na economia moral.

Isso equivale a assegurar que o gérmen da doença mental já estava registrado no perispírito do reencarnante. Da neurose mais simples, passando pela demência, histeria, ansiedade mórbida, esquizofrenia, a gênese é sempre espiritual. Destacando no debate que a doença mental é expiação ou prova também para os pais que podem ter sido coadjuvantes das culpas desses doentes.

Compreendemos que a cura integral dos quadros psicopatológicos é muito difícil porque consta do plano reencarnatório do Espírito, mas a dor, tanto do doente quanto da família, pode ser suavizada se houver em mente nos envolvidos no drama a certeza de que Deus não coloca fardos pesados em ombros frágeis.

Sob o ponto de vista espírita, a terapêutica no tratamento das tragédias psicopatológicas (obsessivas ou não) é essencialmente preventiva, pois o Espiritismo sugere a resignação ante às vicissitudes da vida que poderiam causar o acirramento ou a atenuação da doença. O autoconhecimento, a busca constante da reforma íntima e a transformação pessoal de cada envolvido constituem meios eficazes de manter a saúde psíquica de todos, já que qualquer um de nós pode ser doente em potencial.

Se atinarmos para a vida eterna, notaremos que sofremos hoje tão somente uma fase diminuta e transitória da existência. Urge reconhecer, por isso mesmo, que a cruz que transportamos, embora possa parecer excessivamente pesada, pode ser perfeitamente carregada se mantivermos a força moral e confiança na Providência Divina, e todo esforço será recompensado consoante estabelece os Estatutos do Criador, em cujos códigos jamais haverão espaços para dispositivos injustos.