terça-feira, 20 de outubro de 2015

UMBANDA E ESPIRITISMO CRISTÃO NUMA AVALIAÇÃO OPORTUNA (Jorge Hessen)


Confrades solicitaram-me comentar novamente sobre a tendência umbandista nas instituições espíritas cristãs. Disseram-me que muitos centros “espíritas”, localizados no planalto central, possuem dirigentes, trabalhadores e frequentadores que ainda não se desataviaram dos ritos umbandizantes. São frequentadores, médiuns e doutrinadores que não conseguem se livrar das entidades de “terreiro”. Como se não bastasse, há os que elegem na instituição espírita cristã “mentores ou mentoras” de espíritos impregnados dos atavismo psicológicos de “vovó’s sicranas” ou “vovô’s beltranos”, ou veneram “ex” “preto(as) velhos(as)” etc., como se tais “entidades” fossem campeãs da humildade. Nada mais inconsistente! E não se podem comparar tais “entes” com os sensatos espíritos que se apresentaram como “ex-padres” e “ex-freiras” na concepção da Codificação Espírita. 

A rigor, os cognominados “vó’s fulanas”, “vô’s fulanos”, “pretos (as) velhos (as)”, “índios” , “caboclos” e semelhados, quando desencarnados, não mais pertencem a quaisquer das distintas raças humanas terrenas. No além-túmulo, o espírito não é amarelo, nem vermelho, nem negro , nem branco, embora possa apresentar em seu perispírito distinções de alguma raça, idade se ainda assim se sentir em face da limitação moral e intelectual e ou assim se conceber, como sucedeu numa das reuniões realizadas na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em que Allan Kardec dialogou com um Espírito de um “velhinho” (Pai César), episódio narrado na “Revista Espírita” de junho de 1859. 

A entidade disse a Kardec que havia desencarnado em 8 de fevereiro de 1859 com 138 anos de idade. Tal fato [idade] chamou a atenção do Codificador, que logo se interessou em obter, da Espiritualidade, mais informações sobre o falecido. O “velhinho” disse que havia nascido na África e tinha sido levado para a Louisiana [EUA] quando tinha apenas 15 anos. Desabafou, expondo a todos as mágoas guardadas em seu coração, fruto dos sofrimentos por que passara na Terra em função do preconceito da época. E tamanhas eram as feridas que trazia no peito que chegou a dizer a Kardec que não gostaria de voltar à Terra novamente como negro. 

Será que um “vovô”, uma “vovó”, um(a) preto(a) velho(a), pode ser mentor (a) espiritual de uma casa espírita cristã? Em que pese considerar estranhíssima essa situação, talvez sim! Quem sabe possa uma dessas entidades através de suas palavras e atos mostrar que é digna desse título, se demonstrar conhecimentos doutrinários superiores aos nossos a fim de nos orientar e manifesto amor para nos exemplificar. Porém, não! se evidenciar insuficiente cultura, pouca evolução espiritual e muito apego ainda às sensações materiais (exigir os títulos de “vovô”, “vovó”, preto(a) velho(a), linguajar primário, argumentos infantis, raciocínio vagaroso, etc ).

A maioria absoluta das comunicações de pretos-velhos como “mentores espirituais” de uma instituição genuinamente espirita cristã, é resultado da insipiente sugestão mediúnica, do incabível animismo, ou dos ardis psicológicos e das teimosas mistificações. Pessoalmente não aprovo nem compreendo a manifestação de um “Bezerra de Menezes” travestido de velhinho caquético com voz de “defunto”. Creio que há animismo nesse “transe” ou vício psicológico do “intermediário”. 

Não desconhecemos que houve, seguramente, espíritos bondosos que encarnaram entre os negros africanos para inspirarem aquele povo sofrido, de modo sábio e amoroso, durante o seu cativeiro. Alguns deles, após a morte, certamente tenham podido regressar à retaguarda terrena, por amor ao próprio crescimento espiritual no serviço do bem. Mas não foram numerosos tais espíritos “bonzinhos”, “humildezinhos”, pela lógica, foram raros, porque quase a totalidade dos escravos eram como nós: espíritos de mediana ou pouquíssima evolução.

Há obsessores (e não são poucos), que fingem essa aparência e linguajar (de entes de “terreiros”) com o objetivo de iludir e manter sob hipnose os espíritas ignorantes. Diante desses perspicazes seres do além (às vezes tão-somente produto da mente do “médium”) procuramos adverti-los, alertá-los para a responsabilidade pelos seus atos. Se não acolherem nossas advertências apelamos ao expediente da austeridade verbal e da segurança moral para que se arredem do local, exorando, por nossa vez, o amparo dos diretores espirituais da sessão.

Nas sessões mediúnicas que dirijo há 4 décadas se ocasionalmente há manifestação de tais espíritos (“vós”, “vôs”, “pretos (as) velhos (as)”, caboclos e correlatos), se for permitida pela espiritualidade diretora da sessão, tais espíritos são orientados adequadamente. Não permitimos qualquer intolerância ou preconceito contra eles. Entretanto, analisamos atentamente sua natureza e o conteúdo de suas comunicações, como fazemos com qualquer espírito que se manifeste no grupo. Tais espíritos, para se comunicarem mediunicamente, não precisam e nem estimulamos o uso de linguajar bizarro, incompreensível aos médiuns e aos participantes da reunião. 

O bom senso recomenda que se um desses desencarnados insistir na aparência ou linguajar momentaneamente de suas personagens do passado e deseja evidenciar sua identidade, a manifestação será admissível, se houver quem o possa identificar. Caso contrário será uma comunicação improdutiva. Se tais entidades se apresentam com atavismos da última encarnação (ex-escravos “velhos ou novos”, índios etc.) buscamos orientá-los, a fim de se libertarem desse atavismo. Assim, buscamos esclarecê-los quanto às suas reais naturezas de espíritos em evolução. Na doutrinação nos esforçamos para advertir-lhes que já reencarnaram diversas vezes em diferentes condições e, portanto, têm patrimônio espiritual mais vasto que um simples “velho” ou correlato de uma raça sofrida.

Deste modo, procuramos revelar-lhes que não precisam ficar fixado no psiquismo da existência que concluiu e que na vida espiritual pode continuar progredindo em todos os aspectos, até mesmo no modo de se vestir e falar. Há os que usam sutis subterfúgios, dizendo que se apresentam assim, porque tal ou qual encarnação lhe foi muito grata por lhe haver permitido adquirir “virtudes”, especialmente a “humildade” e o deseja exemplificar. Óbvio que esse argumento é astucioso, pois quem conquistou a virtude da humildade não precisa trombetear e ou ostentar trejeitos de falsas modéstias. Por essa razão orientamos tais “velhinhos” que a humildade não consiste em expressões verbais e aparências exteriores nem em atitudes subservientes.

Muitas pessoas supõem que pretos-velhos, índios e caboclos sejam serviçais, para lhes atenderem aos pedidos. Outras acreditam que eles tenham poderes misteriosos, capazes de resolver de modo mágico os problemas dos consulentes. Parecem, também, julgá-los subornáveis, já que aceitariam agir em troca de algum “pagamento” ou compensação. Em verdade, uma evocação por rituais específicos convidam e condicionam certos espíritos a se apresentarem como preto-velhos, índios ou caboclos. E alguns espíritos, às vezes até os bonzinhos, adotam essa aparência para que, assim, as pessoas do meio em que se vão manifestar (“terreiro”) acolherão mais espontaneamente a sua apresentação e recomendações. 

Enfatizamos porém, que se não estimularmos esse condicionamento, muitos espíritos deixarão de se apresentar como vermelhos, pretos, brancos, velhos, novos etc. etc. etc., passando a se comunicarem em seu modo próprio e natural. Muitos entendem que os “vovôs”, “vovós”, “caboclos”, “pretos-velhos”, são mais eficazes. Creem que as proteções que os Espíritos normais não obtêm os tais mágicos “velhinhos” e “índios” conseguem. Nada mais bisonho!

Sobre o linguajar de tais entes, observamos que a fala de “pretos velhos” não costuma corresponder aos legítimos dialetos africanos ou aportuguesamento deles de épocas remotas. É mais uma tagarelice, uma enrolação, uma confusão de vozes sem significado ou ligação com o que os africanos falavam. A isso classifico de mistificação. Sobre os tais caboclos é óbvio que índios brasileiros não poderiam jamais se denominarem por exemplo “caboclos 7 flechas” (não tinham noção de número), não se autodenominariam “flecha ligeira”, “nuvem branca” etc., como o fazem os índios norte-americanos, os quais as academias de hollywood popularizaram nos filme de “bang bang”. 


Em suma, somos espíritas cristãos e como tais devemos nos comportar e agir no dia a dia, especialmente nas sessões mediúnicas. Em boa lógica, quem não acolha ou não se encaixe nos conceitos e práticas espiritas cristãs precisam procurar diferentes recintos afins, até porque nenhuma pessoa é constrangida a ser espírita cristã.

SEMINÁRIO: Manifestação de fundo umbandista no meio espirita
Parte 1
Parte 2
Parte 3

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A AUTODESTRUIÇÃO NUMA PRECISA ANOTAÇÃO ESPÍRITA (Jorge Hessen)


Jorge Hessen


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 1 milhão de pessoas se matam por ano em todo o mundo. A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio. Somente no Brasil, quase 30 pessoas se suicidam por dia, e infelizmente os números são crescentes. As maiores incidências são nos países ricos. O leste europeu registra um dos mais altos índices de suicídio proporcionalmente. Países da Ásia, como Coreia do Norte, China e Japão são os recordistas mundiais.

Em 2014, mais de 25 mil pessoas cometeram suicídio no Japão. Isso dá uma média de 70 por dia. A maioria é de homens. O assunto voltou a ter destaque recentemente com o suicídio de um homem de 71 anos, que ateou fogo no corpo dentro de um trem bala. Para o psicólogo Wataru Nishida, da Universidade Temple, em Tóquio, a solidão na velhice é o fator número um que antecede a depressão e o suicídio. Tese que encontra respaldo em John Cacioppo, cientista e professor de psicologia da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, que sugere ser o isolamento um fator impactante para acelerar o extermínio “prematuro” do idoso solitário. Para Cacioppo há fatores de risco em face do sentimento de solidão, dentre os quais estão a interrupção frequente do sono, elevação da pressão arterial, aumento do cortisol (hormônio do estresse), alterações no sistema imunológico e aumento da depressão. [1]

Talvez realmente a solidão seja preocupante enfermidade dos dias de hoje. Mas não são apenas os idosos homens com problemas pessoais que estão tirando suas vidas. O índice vem crescendo rapidamente entre homens jovens, fazendo com que o suicídio seja a principal causa de morte entre os homens japoneses com idades entre 20 e 40 anos. E as evidências apontam que estes jovens estão se matando porque perderam completamente a esperança e são incapazes de pedir ajuda. [2]

Para alguns pesquisadores as causas do suicídio podem estar relacionadas a distúrbios psicossociais, como exclusão, dependência química, desesperança e traumas emocionais. Não raro, o suicídio é tido como consequência da depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, anorexia e desvios de personalidade. E os especialistas procuram responder o que leva o ser humano a desrespeitar o seu instinto de autopreservação.

Sob a tese sociológica, o escritor francês Albert Camus, no seu livro intitulado “O Mito de Sísifo” defende a tese que só existe um problema filosófico realmente grave: o suicídio - Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder a questão de filosofia. Que o confirmem os peculiares escritores Artur Shopenhauer no seu macabro livro “As Dores do Mundo”, que induz o leitor fragilizado ao suicídio, e Friederich Nietzsche, que em “Assim Falava Zaratustra” afirma que orar é vergonhoso. Emille Durkhein, um dos maiores pesquisadores das teses suicidógenas, afirma que a culpa maior para uma pessoa cometer um ato tão extremo, de vencer o próprio instinto de conservação é da sociedade, que é a grande pressionadora para esse ato extremo do homem - é o ser psicológico sendo abatido pelo ser social.

Os Espíritos explicam que o adiamento de uma dívida moral significa reencontrá-la mais tarde com juros somados com cobrança sem moratória. A vida na Terra foi dada como prova e expiação e depende de cada um lutar com unhas e dentes para ser feliz o quanto puder, amenizando as suas dores com amor. [3] Como explicar o descontentamento da vida que, sem motivos plausíveis, se apodera de certos indivíduos? Certamente é resultado da ociosidade, da falta de fé, e também da saciedade. É óbvio que ninguém tem o direito de acabar com a própria vida. O suicídio é uma grave transgressão às leis de Deus.

O suicídio cometido por desgosto da vida é uma brutal estupidez, uma loucura. Ora, por que tais infelizes rebeldes da vida não trabalhavam para o próximo? Com certeza a existência seria menos pesada. Infelizes são os que não têm a coragem de suportar as adversidades da existência. Deus ajuda os que sofrem e não os que carecem de energia e de coragem. As consternações da vida são provas ou expiações. Felizes os que as suportam sem se queixar, porque serão recompensados. O suicídio é resultado da ociosidade, da falta de fé, e geralmente da saciedade. [4]

Referência bibliográficas:

[1] Disponível em http://oglobo.globo.com/saude/solidao-aumenta-em-14-as-chances-de-idosos-morrerem-de-forma-prematura-11609030#ixzz2yAIPeewV ,acesso em 05/10/2015

[2] Disponível em http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150705_japao_suicidio_rb , acesso em 07/10/2015

[3] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 920, RJ: Ed. FEB. 2000

[4] Idem , questões de 943 a 949

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

“SELINHOS” MUITAS VIDAS E MULTIPLOS CONFLITOS NAS AFINIDADES PARENTAIS (Jorge Hessen)



Jorge Hessen


A médica Charlotte Reznick vem causando polêmica entre pais ao sugerir que eles evitem dar “selinho” em seus filhos. De acordo com ela, essa é uma demonstração de afeto "erotizante" e pode confundir a criança.  Para Charlotte a boca é uma zona erógena do corpo e, assim, as crianças podem associar o beijo com atividades românticas e sexuais entre os pais. [1]A opinião da médica foi criticada e combatida por outros médicos e psicólogos, como Sally-Anne McComarck que afirma ser impossível um “selinho” confundir a cabeça dos filhos. Se fosse assim , profere McComarck, a amamentação traria mais confusão. Aliás, em 2013, Mayim Bialik, que interpreta a cientista Amy Farrah Fowler na série The Big Bang Theory , foi duramente criticada por uma foto em que aparece amamentando o filho de três anos no metrô de Nova York. Apesar de afirmar sentir falta de amamentar o filho, a atriz celebrou o momento em que o filho escolheu desmamar. 
Há diversos debates em torno do infantilismo psicossexual - Apesar da mãe ser o parente que gratifica principalmente os desejos infantis, a criança começa a formar uma identidade discreta sexual - "menino", "menina" - que altera a dinâmica do relacionamento entre pais e filhos; os pais tornam-se objeto de energia libidinal infantil. Na teoria clássica da psicanálise, o complexo de Édipo ocorre durante o estágio fálico do desenvolvimento psicossexual (a idade de 3 até 6 anos), quando ocorre também a formação da libido e do ego; no entanto, pode se manifestar em idade mais precoce.[2] As chamadas complicações edipianas outra coisa não representam senão os laços obscuros que entretecemos, ao enlear almas queridas no nosso carro sentimental – laços esses que passam a reclamar-nos o preciso desfazimento, para que a mútua libertação nos felicite.
Emmanuel nos instrui afirmando que o filho excessivamente vinculado à mãe, na maioria das ocasiões, é aquele mesmo companheiro que a genitora jungiu à própria senda, no passado, a suplicar-lhe agora o apoio necessário, a fim de exonerar-se das algemas psicológicas que o prendem à insegurança. E a filha imensamente ligada ao pai, habitualmente é a mesma companheira que ele acorrentou ao próprio destino em experiências do passado, a implorar-lhe hoje o auxílio indispensável, a fim de se desembaraçar do egoísmo com que se lhe enviscou à influência, em nome do amor. [3]
Baseando-nos no trabalho biológico de construção do ser, assente em milênios numerosos, é indubitável que surpreenderemos na criança todo o equipamento dos impulsos sexuais prontos à manifestação, quando a puberdade lhe assegure mais amplo controle do carro físico. E, com esses impulsos, eis que lhe despontam do espírito as inclinações para maior ou menor ligação com esse ou aquele companheiro do núcleo familiar. O jogo afetivo, porém, via de regra se desenrola mais intensivamente entre a criança e os pais, reconhecendo-se para logo se os laços das existências passadas estão mais fortemente entretecidos com o genitor ou a genitora. [4]
Debitando-se ao impulso sexual quase todos os alicerces da evolução sobre os quais se nos levanta a formação de espírito, é compreensível que o sexo apareça nas cogitações das crianças em seu desenvolvimento natural, e, nesse território de criações da mente infantil, será fácil definir a direção dos arrastamentos da criança, se para os ascendentes paternos ou maternos, porquanto aí revelará precisamente as tendências trazidas de estâncias outras que o passado arquivou. [5]
Apreciando isso, recordemos o cipoal das relações poligâmicas de que somos egressos, quanto aos evos transcorridos, e entenderemos  com absoluta naturalidade, os complexos da personalidade infantil. Assim sucede, porque herdamos espiritualmente de nós mesmos, pelas raízes do renascimento físico, reencontrando, matematicamente, na posição de filhos e filhas, aqueles mesmos companheiros de experiência sentimental, com os quais tenhamos contas por acertar. Atentos a semelhante realidade, somos logicamente impulsionados a concluir que os vínculos da criança, de uma forma ou de outra, em qualquer distrito de progresso e em qualquer clima afetivo, solicitam providências e previdências, que sintetizaremos tão-somente numa palavra única: educação. [6]
A inquietação da Dra.  Charlotte Reznick sobre os “inocentes selinhos” é corroborada pelo Mentor de Chico Xavier quando afiança que   no fundo da personalidade paterna ou do maternal coração, descansam os remanescentes de grandes afeições, às vezes desequilibradas e menos felizes, trazidos de outras estâncias, nos domínios da reencarnação. A libido ou o instinto sexual na forma de energia psíquica, tendente à conservação da vida, permanece, em muitos casos, na carícia dos pais, vestida em veludíneo manto de carinho e beleza, mas o amor é ainda, no adito do espírito, qual fogo de vida que se nutre do próprio lenho [7]
Toda criatura consciente traz consigo, devidamente estratificada, a herança incomensurável das experiências sexuais, vividas nos reinos inferiores da Natureza. De existência a existência, de lição em lição e de passo em passo, por séculos de séculos, na esfera animal, a individualidade, erguida à razão, surpreende em si mesma todo um mundo de impulsos genésicos por educar e ajustar às leis superiores que governam a vida. [8]Cada homem e cada mulher que ainda não se angelizou ou que não se encontre em processo de bloqueio das possibilidades criativas, no corpo ou na alma, traz, evidentemente, maior ou menor percentagem de anseios sexuais, a se expressarem por sede de apoio afetivo, e é claramente, nas lavras da experiência, errando e acertando e tornando a errar para acertar com mais segurança, que cada um de nós - os filhos de Deus em evolução na Terra - conseguirá sublimar os sentimentos que nos são próprios, de modo a erguer-nos em definitivo para a conquista da felicidade celeste e do Amor Universal. 
Como vemos temos que entronizar na discussão a importância da teoria da reencarnação para uma compreensão melhor e mais humana dos chamados “complexos parentais”. As ainda raras pesquisas científicas sobre a reencarnação abrem novas possibilidades de compreensão dos conflitos entre pais e filhos. O Espiritismo, por isso mesmo, se torna mais apto a ajudar a psicologia profunda na descoberta das raízes verdadeiras das situações parentais conflitivas.

Nota e referências bibliográficas:

[1] Disponível em http://mulher.terra.com.br/vida-de-mae/selinho-nos-filhos-confunde-e-deve-ser-evitado-diz-medica,6e8b07999ea47234d0b590037d0cbadb74rcRCRD.html   acesso 21/09/2015
[2] Joseph Childers, Gary Hentzi eds. Columbia Dictionary of Modern Literary and Cultural Criticism (New York: Columbia University Press, 1995)
[3] Artigo publicado na coluna dominical "Chico Xavier pede licença" do jornal Diário de S. Paulo, na década de 1970. 
[4] Xavier, Francisco Cândido. Vida e Sexo, ditado pelo espirito Emmanuel , RJ: Ed. FEB 1970, cap. 14
[5] Idem
[6] Idem
[7] Idem
[8] Xavier,  Francisco Cândido. Vida e Sexo, ditado pelo espirito Emmanuel , RJ: Ed. FEB 1970, cap. 24

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

HISTORIA DO PAE - POSTO DE ASSISTÊNCIA ESPIRITA

HISTORIA DO PAE - POSTO DE ASSISTÊNCIA ESPIRITA    


Wilson Reis, Carlos Augusto, Jorge Hessen e João Alves
No dia 20 de janeiro de 1975, estavam reunidos numa pizzaria, na Asa Norte de Brasília, os irmãos Carlos Augusto, Jorge Hessen e Wilson Barbosa, durante a conversa aventou-se a possibilidade da fundação de um centro espírita na cidade de Ceilândia. A ideia surgiu porque à época os companheiros Amaro Raimundo, Jorge Hessen, , Wilson Barbosa e Wilaldo Petroscosk, realizavam, na região, um serviço social de recuperação de barracos junto às muitas famílias carentes, enquanto Carlos Augusto administrava a Casa de Ismael. A sugestão da instituição brotou sob os argumentos de que a construção de um centro espírita na região aproximaria o grupo materialmente dos necessitados e possibilitaria ampliação das tarefas principalmente através da evangelização dos filhos e dos próprios assistidos.


Edmundo, Geraldo, Luiz, Jorge Hessen, Wilson Reis (agachado) Fabiano Augusto
Há 39 anos, naquela peculiar reunião, era lançada a semente do PAE e o entusiasmo assumiu o bom ânimo dos três vanguardeiros cristãos, ambos sentindo-se envolvidos pelo auxílio dos Benfeitores. O projeto do trio, portanto, era a semeadura da Verdade Espírita sob os auspícios de Jesus entre os irmãos deserdados. O grupo não dispunha de recursos financeiros para a execução imediata do projeto, em razão disso, Wilson sugeriu que nos aproximássemos de uma instituição já existente, dessa forma poderíamos colaborar com a casa espírita da região, ao mesmo tempo ganharíamos maior experiência; até porque a semente do PAE estava lançada e no momento exato iria germinar com as bênçãos dos Benfeitores.

D. Miguelina, filhos da D. Ismeria e o Alvaro
A sugestão foi bem acolhida pelo grupo. Logo após a reunião teve-se notícia sobre a existência do Centro Espírita Boa Árvore. Por essa rzão, Wilson Barbosa e Jorge Hessen se deslocaram da Comunhão Espirita de Brasília, num domingo pela manhã e rumaram para Ceilândia. Chegaram ao C.E Boa Árvore e encontraram o companheiro João Alves da Costa, então presidente da instituição. João ficou bastante animado quando foi-lhe exposto o nosso intuito de ajudá-lo, afirmando que suas preces haviam sido atendidas, pois a casa necessitava de trabalhadores.

Iniciamos em parceria com o “Boa Árvore” a evangelização infantil e palestras para os adultos. Muitos irmãos se uniram ao grupo nesse primeiro momento. Os trabalhadores da primeira hora foram além dos confrades Carlo Augusto, Jorge Hessen, Wilson Barbosa, juntaram ao grupo Eli Machado da Silveira, João Batista Cavalcante Araújo, Glória Maria Andrade Cavalcante Araújo, Aldeci Carvalho de São José, Edmundo Montalvão, Wilaldo Petrocoski dos Santos, Rosângela Rodrigues Melo. O trabalho cresceu e em pouco tempo seria iniciado o serviço de atendimento médico com dois especialistas, que se juntariam ao grupo. E assim novos irmãos foram chegando.
João Alves
Jo

Com o crescimento do grupo, sentíamos a necessidade de deixar crescer e florescer a ideia inicial da fundação do PAE. Ficamos mais de dois anos com os irmãos da Ceilândia até decidirmos buscar juntos à Terracap a adquirir um lote para iniciarmos as novas atividades. Fomos convidados a sair do Boa Árvore e passamos a nos reunir da residência da D. Carmelita (ex-caseira) e na residência da Rosângela e por fim nos reunimos no domicílio do irmão Carlos Augusto, em Sobradinho, com a presença de todos os trabalhadores, para enfim, no dia 27 de fevereiro de 1977, fundar o PAE – Posto de Assistência Espírita, nome e sigla sugeridos por Jorge Hessen e aprovado por unanimidade.

A primeira diretoria ficou assim constituída: - Presidente: João Alves da Costa; - Vice-Presidente: Jorge Hessen; - Secretário: Wilson dos Reis Barbosa; - Tesoureiro: Wilaldo Petrocoski dos Santos; - Bibliotecária: Maria da Conceição Paiva Melo; - Conselho Fiscal: Eli Machado da Silveira, Edmundo Montalvão e Amaro Raimundo dos Santos.

Ocupamos a área de 1200 m2, localizada QNM 40, Área Especial 02 – Taguatinga Norte, comprado junto à Terracap por de retrovenda, isto é , era preciso construir os prédios no prazo de no máximo 3 anos. Carlos Augusto, Jorge Hessen, Wilson Barbosa , João Alves e Eli Silveira e Amaro Raimundo elaboraram os projetos arquitetônicos e posteriormente foi iniciada as obras de construção.
Jorge Hessen 1977

Foram realizados muitos almoços fraternos, e exibição de filmes infantis no cine Karim para arrecadação dos recursos, porém, durante a edificação dos prédios, não se estava conseguindo cumprir o cronograma pactuado junto à Terracap, motivo pelo qual o lote deveria ser devolvido ao governo. Por esse motivo Jorge Hessen decidiu fazer uma campanha junto ao Presidente da FEDF, Paulo de Carvalho e do Professor da UnB José Jorge e ambos fizeram uma rateio junto aos servidores do Senado Federal e conseguiram os recursos financeiros para o término dos blocos inacabados.
Eli, Jorge Hessen e Paulo


Logo após garantir os recursos para término da obra, Jorge Hessen conseguiu outra dádiva divina para o PAE. Em conversa com sua amiga Higínia, uma espanhola muito querida, ficou sabendo de uma robusta doação do Cônsul do Uruguai destinada ao C.Espírita "X". Jorge convenceu sua amiga a intervir para dividir tal doação com o PAE e logrou êxito. Com os recursos doados pelo Consul uruguaio, Jorge, então tesoureiro do PAE, foi pessoalmente à Terracap e recebeu a documentação de quitação definitiva do saldo devedor da área especial número 2 da QNM 40 Área Especial.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O AUTOEROTISMO NUMA CONCISA CIRCUNSPECÇÃO (Jorge Hessen)

Jorge Hessen
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Lá pelas plagas espanholas, há exatos 5 anos, na província de Extremadura, havia um curso escolar que ensinava masturbação a jovens de 14 aos 17 anos. Tal plano provocou polêmica entre pais e educadores. O curso fazia parte de um programa introduzido pelas Secretarias de Educação e Juventude da tal província ibérica, intitulado "O prazer está em suas mãos". Os idealizadores disseram que o curso objetivava acabar com mitos para que os adolescentes entendessem a sexualidade de forma natural. [1]

Na visão da secretária de Juventude de Extremadura, Laura Garrido, o novo curso não deveria escandalizar a ninguém, principalmente porque já fomos adolescentes e todos nós possuímos uma carga erótica.[2] Entretanto, nem todos os pais de alunos estiveram de acordo. A Associação de Pais Católicos de Extremadura formou um grupo de protesto chamado "Cidadania para a Educação" e ameaçou levar o governo regional aos tribunais. O grupo abriu um fórum de debate na internet e enviou uma carta ao governador local reclamando do novo curso escolar. [3]

Para alguns espíritas a prática do onanismo (masturbação) leva o indivíduo a situações de dormência temporária dos seus sentimentos mais delicados, das suas emoções mais sensíveis. Aludem que a prática do onanismo não faculta ao Espírito melhor sensibilidade, distrai-o e lhe entorpece os sentimentos mais elevados. Asseguram que do ponto de vista Espiritual, o onanismo é um tipo de autoflagelação, porque o Espírito está negando a capacidade de evoluir em sentimentos muito mais elevados e se contenta com aquilo que apenas o seu sensório produz: as sensações primárias. 

Por outro lado, há argumentos de que o sexo não é sujo, nem feio, nem errado. Sexo é troca de energias, e energias divinas, pois através delas as pessoas são atraídas umas às outras e , sendo o ponto de referência do processo reencarnatório não pode se demonizado. Há quem insinue, será que alguém já casado oficial ou “extraoficialmente” , que não obtém satisfazer de maneira indispensável os anseios sexuais com o parceiro(a), por diversas razões, deve atender tais necessidades genésicas masturbando-se ou deve aventurar-se fora do lar , buscando satisfazer suas “necessidades” ? Nesta última hipótese tais pessoas mergulharão nas aventuras extraconjugais. E isso é muito pior. 

A masturbação é condenável? Diria que não é recomendável. Ante o comedimento moral que deve procurar o encarnado, resistindo a fim de refinar seus ideais, o caminho espírita cristão é aperfeiçoar hábitos sadios e disciplinados que enfrentem o sexo como uma forma material, mas digna, de praticar o amor, numa união estável e leal, mirando à constituição de uma família e, por conseguinte, instituindo condições para maturação espiritual. Assim sendo, se não é recomendável obviamente é contraproducente e, portanto, não é benigno, pois, em cenário de reforma íntima, toda disciplina será bem-vinda.

Obviamente não podemos esquecer que o argumento “religioso” de repressão ao comportamento sexual, em qualquer contexto, é um convite ao desejo. O chamado “fruto proibido” tem sido historicamente o mais ambicionado. Normalmente a coação tem implicação oposta a pretendida, sobretudo em matéria de sexualidade. É importante educar, elucidar sensatamente , advertir corretamente às pessoas, sem formatações de extemporâneas normas moralistas para os outros.

Há muitas pessoas que vivem angústias profundas em torno das diretrizes comportamentais na área sexual e isso é compreensível em nosso estágio de humanidade. O onanismo é uma dessas ansiedades, que segundo Sigmund Freud, é envolvida em muito preconceito, graças ao dogmatismo religioso que estigmatiza a sexualidade. Porém vai distante a época em que se decretava que a masturbação conduzia à loucura e ao inferno. 

Normal no adolescente que está descobrindo a sexualidade, frequente nos corações solitários, o problema é que a masturbação favorece a viciação, aguçando o psiquismo do indivíduo com sensualidade avivada. Há os que empregam o subterfúgio aventureiro , alegando que “a carne é fraca”. Contudo a sede dos desejos é o espírito e não o corpo. O Espiritismo não proíbe nada é fato. Mas, muitas vezes escorados nas suas falácias alguns argumentam , ora se o Espiritismo não proíbe, então tudo está liberado. E na ladainha para reforçar os pontos de vista alegam que “a virtude está no equilíbrio”, pois o que é prejudicial é o abuso, não o uso.

O livro O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, capítulo VII: “As penas futuras segundo o Espiritismo”, esclarece que a carne só é fraca porque O Espírito é fraco, pois quando destituída de pensamento e vontade, a carne não pode prevalecer sobre o Espírito, que é o ser pensante e de vontade própria. [4]E mais, Deus nos dotou do livre-arbítrio. Como explicam os Espíritos em resposta à questão 843 de O Livro dos Espíritos, sem o livre-arbítrio, o homem seria uma máquina, pois se tem a liberdade de pensar, é compreensível que tenha a liberdade de agir.[5]

O autoerotismos não deixa de ser uma busca de "prazer" egoísta, por isso mesmo, toda prudência é imprescindível. Na área sexual, urge vigilância permanente, pois, na maioria das vezes ao se masturbar, a criatura não está tão solitária como imagina. Espíritos sexólatras podem estimular este vício solitário, nos processos de simbiose, prejudicando até mesmo casais quando um dos parceiros opta por masturbar-se. Entretanto, mister considerar que cada caso é um caso, sem desconsiderar jamais que o equilíbrio e a disciplina mental precisam ser alcançados. Por isso o Espírito Emmanuel, no livro "O Consolador", questão 184, orienta-nos que, "ao invés da educação sexual pela satisfação dos instintos, é imprescindível que os homens eduquem sua alma para a compreensão sagrada do sexo".[6]

Ainda recorrendo ao excelso Emmanuel, estudamos que “diante das proposições a respeito do sexo, é justo sintetizar-se todas as digressões possíveis nas seguintes normas: não proibição, mas educação; Não abstinência imposta, mas emprego digno, com o devido respeito aos outros e a si mesmo; Não indisciplina, mas controle; não impulso livre, mas responsabilidade. Fora disso, é teorizar simplesmente, para depois aprender ou reaprender com a experiência. Sem isso, será enganar-nos, lutar sem proveito, sofrer e recomeçar a obra da sublimação pessoal, tantas vezes quantas se fizerem precisas, pelos mecanismos da reencarnação, porque a aplicação do sexo, ante a luz do amor e da vida, é assunto pertinente à consciência de cada um. Ninguém se burila de um dia para outro e as conversões religiosas exteriores não alteram, de improviso, os impulsos do coração. [7]

Em face disso, muitos de nossos erros imaginários na Terra são caminhos certos para o bem, ao passo que muitos de nossos acertos hipotéticos são trilhas para o mal de que nos desvencilharemos, um dia!...A energia sexual, como recurso da lei de atração, na perpetuidade do Universo, é inerente à própria vida, gerando cargas magnéticas em todos os seres, face às potencialidades criativas de que se reveste. 

Referências bibliográficas:




[4] Kardec, Allan. O Céu e o Inferno, RJ: Ed. FEB 2000, capítulo VII

[5] Kardec, Allan, o Livro dos Espíritos, RJ: Ed. FEB, 2000, pergunta 843

[6] Xavier, Francisco Cândido. Consolador, ditado pelo Espirito Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 2001, questão 184

[7] Xavier, Francisco Cândido. Vida e Sexo, ditado pelo Espirito Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 2003

sábado, 12 de setembro de 2015

ANTE A CRISE DE REFUGIADOS DO MUNDO (Jorge Hessen)

Jorge Hessen

Documento da Organização das Nações Unidas considera a guerra civil síria como a grande tragédia do século 21. O conflito foi marcado por violenta revolta armada em 2011. Segundo estimativas de organizações internacionais, o número de mortos na guerra é de quase 300 mil pessoas. Mais de quatro milhões de sírios já teriam buscado refúgio no exterior para fugir dos combates. O governo sírio garante estar tão-somente combatendo terroristas armados que visam desestabilizar o país. A guerra, todavia, tem raízes de natureza sectária e religiosa, com diversas facções atingindo outros países como Iraque e o Líbano, atiçando especialmente a rivalidade entre xiitas e sunitas.

A partir de 2013, aproveitando-se do caos da guerra civil tanto na Síria quanto no Iraque, um grupo autoproclamado Estado Islâmico (EI, ou ad-Dawlah al-Islāmīyah) começou a reivindicar territórios na região. Desde então, passou a chamar a atenção do mundo pelos requintes de violência e crueldade nas inúmeras atrocidades que cometem. Lutando inicialmente ao lado da oposição síria, as forças desta organização passaram a atacar qualquer uma das facções (sejam apoiadoras ou contrárias ao presidente sírio) envolvidas no conflito, buscando hegemonia total.

Em junho de 2014, militantes deste grupo proclamaram um Califado na região, com seu líder Abu Bakr al-Baghdadi como o califa. Eles rapidamente iniciaram uma grande expansão militar, sobrepujando rivais e impondo a sharia (lei islâmica) nos territórios que controlavam. Então diversas nações ocidentais como os Estados Unidos, as nações da OTAN na Europa e países do mundo árabe, temendo que o fortalecimento do EI representasse uma ameaça a sua própria segurança e a estabilidade da região, iniciaram uma intervenção armada contra os extremistas.

O relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) divulgado recentemente revela uma estatística catastrófica: são quase 60 milhões de refugiados, requerentes de asilo e deslocados internos até 2014, e esse número cresce a cada dia. O relatório diz ainda que 15 conflitos surgiram ou se reiniciaram nos últimos cinco anos. Isso fez com que milhares de pessoas buscassem refúgio em outros países. É como se 1 em cada 122 pessoas no mundo fossem refugiadas.

E o que mais assombra na estatística é que a metade são crianças. Uma delas é representada pelo menino sírio de três anos fotografado morto numa praia na Turquia após o barco em que estava com a família ter naufragado na tentativa de chegar à Grécia. Tal foto chocou o mundo e chamou atenção para a situação dos refugiados e imigrantes na Europa.

Em meio ao que se tornou a maior crise de refugiados do mundo desde a Segunda Guerra Mundial, felizmente nem tudo está perdido. Descobrimos aqui e ali amostras de comiseração diante desse quadro de calamidade humana. A exemplo da generosidade demonstrada por um casal de noivos turco, que decidiu compartilhar a alegria do dia do casamento com milhares de refugiados sírios, convidados para celebrar junto com eles na cidade de Kilis, no Sul da Turquia. Os noivos distribuíram pessoalmente, ainda vestidos com os trajes da festa de núpcias, toda a comida armazenada em alguns caminhões.

Vários países enfrentam dificuldades para conviver com essa nova realidade de imigrantes chegando aos milhares em suas terras, mas um grande exemplo de compaixão e caridade noticiado na imprensa veio da Islândia, onde mais de 12 mil islandeses, um país com pouco mais de 300 mil habitantes, ofereceram suas casas para receber os refugiados.

Grande exemplo de altruísmo deu o bilionário Naguib Sawiris, anunciando que quer comprar uma ilha para abrigar as famílias que buscam uma nova vida longe das guerras e da perseguição. Naguib acredita que sua ideia é viável e que ele será capaz de construir um novo país a partir do zero, investindo fortemente em infraestrutura. Mas é preciso convencer os países a lhe vender uma ilha desabitada e obter o direito de existência legal de um novo país.

Outro endinheirado, Hamdi Ulukaya, fundador da Chobani – marca líder no mercado de iogurte grego nos Estados Unidos – decidiu aderir ao The Giving Pledge, iniciativa criada por Bill Gates e Warren Buffett que reúne ricaços do mundo inteiro dispostos a doar uma parte ou suas fortunas inteiras em vida. Ulukaya, que é dono de um patrimônio estimado em US$ 1,41 bilhão (R$ 5,44 bilhões), entra para o grupo com a missão de investir pelo menos metade desta cifra em ações que auxiliem refugiados em todo o mundo. No ano passado ele já havia doado US$ 2 milhões (R$ 7,72 milhões) à Agência da ONU para Refugiados, e recentemente também criou uma fundação, a Tent, cujo foco está na mesma causa.

Conquanto infrequentes há muitas pessoas generosas entre nós. A Terra entretanto é um mundo de expiações e provas, razão pela qual a paz absoluta ainda não se encontra neste planeta, apenas em mundos mais evoluídos. Em nosso orbe a tranquilidade social é relativa.[1] É verdade! Ao Espiritismo cristão está reservada a tarefa de alargar os horizontes dos conhecimentos, nos domínios da alma humana, contribuindo para a solução dos enigmas que atormentam as sociedades contemporâneas de todas as culturas, projetando luz nas questões quase que indecifráveis do destino e das dores morais do homem contemporâneo.

Em suma, à proliferação do fenômeno migratório é necessário contrapor com a universalização do altruísmo e do auxílio incondicional, a fim de humanizar as condições dos banidos forasteiros. Ao devotamento e abnegação para com os migrantes e os refugiados há que vincular o entusiasmo e a capacidade criativa imprescindíveis para ampliar, em nível planetário, uma ordem social, econômico-financeira e política mais justas e equitativas, ao lado de um maior comprometimento a favor da paz, condições essas imperiosas para o robustecimento do Evangelho entre os homens.

Referência bibliográfica:

[1] Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 20, capítulo V, RJ: Ed. FEB, 2000

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

AS LUZES DO “CAMINHO”, PORÉM O HOMEM AINDA NÃO SE CRISTIANIZOU (Jorge Hessen)

 (Jorge Hessen)

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Depois da chamada aparição (“ressurreição”) e a “ascensão” de Jesus, os apóstolos retornaram a Jerusalém, exatamente como o Senhor lhes havia ordenado.[1] Deram início às reuniões em suas residências, e aos poucos os encontros foram se tornando públicos. Nessa conjuntura ainda não eram conhecidos como "cristãos", porém "nazarenos", dando início ao formato das comunidades (grupos) dentro do Judaísmo.[2] O célebre “pentecostes”, ocorrido logo após a “ascensão” do Mestre, veio fortificá-los na fé, cientificando a todos que o Cristo não os desamparara. Exaltando o Evangelho em diferentes idiomas pela psicofonia dos divinos médiuns, os Espíritos comprovavam que se cumpria naquele momento o prenúncio de Jesus de que sua mensagem seria ouvida por todas as nações da Terra.

Naquela ocasião, outro fato enternecedor adveio com Cléofas e outro discípulo que no domingo da “ressurreição” viajavam de Jerusalém para a aldeia próxima de Emaús, quando o próprio Crucificado se lhes ajuntou na caminhada. Posteriormente, Jesus apareceu por duas vezes totalmente materializado em Jerusalém nas reuniões realizadas em recinto fechado entre os apóstolos. Em seguida se apresentou na praia e comeu com alguns discípulos peixe assado e um favo de mel. Por cerca de quarenta dias após a “ressurreição”, continuou oferecendo provas inequívocas da imortalidade.

Nos supremos instantes os apóstolos reunidos oravam, cantavam, viviam e divulgavam o Evangelho, consubstanciando na fundação da “Casa do Caminho”, marco inicial daquela fase de ouro do Cristianismo primitivo. A recordação desses dois ou três primeiros anos do “pós-gólgota” ficou sendo como a de um paraíso terrestre, que o Cristianismo posterior jamais conseguiu reeditar. 

Os apóstolos pregavam com arrebatamento a Boa Nova. As orações eram às vezes tão intensas que o próprio prédio “sacudia” em seus alicerces. A vida religiosa dos mesmos centrava em alguns desempenhos fundamentais: a oração, os sermões, a instrução religiosa e uma coletiva refeição diária. Levavam uma vida simples, despojada, sem confiar no poder do dinheiro. Em razão disso não se deixavam corromper.

Sem dúvida, as grandes colunas ou desígnios da “Casa do Caminho” foram: o ensino e vivência da mensagem de Jesus, a assistência social, os tratamentos físico e espiritual, e a instauração de ambiente fraterno. Empregavam o trabalho assistencial de distribuição de alimentos, de remédios, de roupas e até mesmo dos dons curativos como chamariz para conseguirem o objetivo maior: a evangelização do socorrido. Procuravam transformar o assistido em assistente tal como aconteceu com Jeziel, que veio a ser o admirável Estevão, primeiro mártir do Cristianismo.

Não cobiçavam cargos de comando. Certa vez, Pedro, o primeiro líder do grupo, deliberou escolher um sucessor para Judas Iscariotes no colégio apostólico. Reuniu uma assembleia para eleger o sucessor. A assembleia apresentou dois nomes: José Justo e Matias (dois fidedignos cristãos). Sugeriu-se então, em vez de eleição, depositar os dois nomes numa sacola e retirar um após uma prece. Desse modo Matias foi o escolhido para suceder a Judas Iscariotes. A comunidade vivia um momento tão fraternal que José Justo, embora não tenha sido escolhido pelo sorteio, ofertou sua propriedade à “Casa do Caminho”, em sinal de solidariedade à decisão tomada pelo Plano Superior.

Simão Pedro e companheiros administraram a “Casa do Caminho”, situada na estrada que ligava Jerusalém a Jope. Auxiliado particularmente por Tiago (filho de Alfeu) , Filipe  e por João (filho de Zebedeu), Cefas organizou os primeiros arranjos da instituição ao influxo amoroso das lições do Mestre. Em face disso, a residência do velho pescador (doação dos amigos do "Caminho"), transbordava de enfermos e desvalidos sem esperança. É célebre a frase do Cristo "Eu sou o caminho, a verdade e a vida". Em face dessa citação, quando os discípulos assumiram a divulgação do Evangelho, passaram a ser conhecidos como os “homens do Caminho".

O número de seguidores da nova Doutrina aumentou espantosamente – além dos discípulos judeus-palestinenses havia discípulos da diáspora, apontados como "helenistas". Nesse contexto em que a “Casa do Caminho” crescia, paralelamente ocorriam os rigores do misticismo de Tiago, filho de Alfeu. Irromperam as diferenças de opiniões e de interesse entre os discípulos judeus-palestinenses e os “helenistas”. Os apóstolos, sentindo a necessidade de se dedicarem só à pregação, providenciaram para que a comunidade escolhesse trabalhadores fiéis para instruir os judeus da diáspora ( “helenistas”).[3]

Destaca-se na ocasião o “helenista” Estêvão, um judeu da diáspora, que aderiu à "Seita do Caminho" e começou a fazer em Jerusalém pregações veementes acusando os judeus de massacrarem os Profetas e Jesus, além de críticas à Lei e ao Templo. Talvez fosse ele o porta-voz da mais antiga pregação dos discípulos convertidos provindos da diáspora.

O irmão de Abigail analisava as profecias, sobretudo de Isaias. Ao saber que Jesus havia sido crucificado, recordou o profeta: “Levantar-se-á como um arbusto verde, vivendo na ingratidão de um solo árido, onde não haverá graça nem beleza. Carregado de opróbrios e desprezado dos homens, todos lhe voltarão o rosto. Coberto de ignomínias, não merecerá consideração. É que Ele carregará o fardo pesado de nossas culpas e de nossos sofrimentos, tomando sobre si todas as nossas dores.”[4]

Quando outros seguidores do Mestre contemporizavam os comentários públicos com exposições agradáveis ao judaísmo predominante, “Estevão apresentava à multidão o Salvador do Mundo, indiferente às lutas que iria provocar, comentando sobre a vida do Crucificado com o seu verbo inflamado de luz.”[5]

O idioma grego foi o veículo de transmissão do Cristianismo nos seus primeiros tempos. Mais tarde Paulo pregou que não havia diferença entre "judeu" (palestinenses) e "grego" (“helenistas”) quanto à “salvação” em Jesus Cristo, porque pelo "batismo do Espírito", ou seja, imposição de mãos pelo passe, todos se tornavam "irmãos em Cristo"; portanto não era preciso passar antes pelo judaísmo para se tornar cristão. Mas tal questão só ficou definitivamente resolvida após uma reunião com os apóstolos e os anciãos (presbíteros) na comunidade (igreja) de Jerusalém, em 49 d.C. A essa reunião alguns estudiosos chamam de "Concílio" de Jerusalém. [6]

Fazemos aqui uma breve interpolação por questão de coerência histórica. Em nossa narrativa não podemos esquecer que a primeira dessas congregações cristãs surgiu na Galileia, e era composta principalmente de mulheres oprimidas e simples do povo. Tais baluartes do Evangelho atendiam os mendigos, pedintes, coxos e aleijados com auxílios de amparo e de solidariedade. Na crise do Calvário, que culminou na morte de Jesus, as mulheres galileias tiveram posição destacada aos pés da Cruz. A “Casa do Caminho” contou com a colaboração fundamental de valorosas companheiras de ideal. Maria (mãe de Jesus), Lídia (mãe de Silas), Maria e sua irmã Marta, Suzana, Salomé, Maria [esposa de Cléofas], Maria (mãe de João Marcos), Maria de Magdala, Joana de Cusa, Loíde e Eunice ( avó e mãe de Timóteo), Priscila (esposa de Áquila), Lídia, viúva digna e generosa etc, etc, etc...

Mais de cem pessoas recebiam assistencialmente alimentação diária, além dos serviços de socorro aos enfermos, aos órfãos, aos alienados mentais e viciados. Por outro lado, a perseguição atroz do judaísmo obrigou a uma relação de permanentes concessões. Havia infelizmente a dependência monetária da sociedade judia para manutenção da obra.

Certa ocasião, Paulo, já convertido, quando em visita a Jerusalém, consternado com a situação da “Casa do Caminho”, em diálogo com Pedro, recomendou buscarem-se outros meios de libertar as verdades evangélicas do convencionalismo humano. Sugeriu serviços agrários de captação de recursos próprios. Cada assistido trabalharia de conformidade com as próprias forças. Assim poderia emancipar o grupo de Jerusalém das imposições do farisaísmo.

Pedro justificava que os assistidos já trabalhavam, contudo a igreja continuava onerada de despesas e dívidas que só a cooperação do judaísmo poderia atenuar. Paulo advertiu, porém, que se poderia atender a muitos doentes, ofertar um leito de repouso aos mais infelizes; todavia sempre houve e haverá corpos enfermos e cansados na Terra. Na tarefa cristã, obviamente semelhante esforço não pode ser esquecido, mas a iluminação do espírito deve ser tarefa prioritária. Se o homem trouxesse o Cristo no íntimo, o quadro das necessidades seria completamente modificado.

Não mais de três séculos decorridos dos tempos apostólicos surgiram a falsidade e a má fé, adaptando-se às conveniências dos poderes políticos do mundo, desvirtuando-se todos os princípios, por favorecer doutrinas de violência oficializada. Por isso, a civilização ocidental não chegou a se cristianizar. [7] Mas o Espiritismo, na sua missão de Consolador, será o amparo do mundo nestes séculos de declives da sua História; só ele pode, na sua feição de Cristianismo redivivo, salvar as religiões que se apagam entre os choques da força e da ambição, do egoísmo e do domínio, apontando ao homem os seus verdadeiros caminhos. [8]

São chegados os tempos em que as forças do mal serão compelidas a abandonar as suas derradeiras posições de domínio nos ambientes terrestres. Trabalhemos por Jesus, ainda que a nossa oficina esteja localizada no deserto das consciências. [9]

Nota e referências bibliográficas:

[1] Lc 24:52; Atos 1: 12-13).
[2] Os discípulos do Crucificado foram chamados "cristãos" pela primeira vez na comunidade de Antioquia, na Síria; por sugestão de Lucas
[3] Atos 6
[4] Isaías, 9:6-7

[5]            Xavier, Francisco Cândido. Paulo e Estêvão, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1982
[6]            Atos 15:1
[7]            Xavier, Francisco Cândido. A Caminho da Luz, ditado pelo Espirito Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 1997
[8]            idem

[9]            idem